Um irmãozinho

   Quero ter um irmãozinho, disse João para sua mãe e seu pai. Ele, filho único de um casal de idade avançada, dessas que os médicos alertam sobre os riscos de uma gravidez. Garoto franzino, esperto e muito, muito observador. Por ser filho único, e de pais já mais velhos, era de se esperar que fosse um tanto mimado e quase criado em uma redoma de vidro. Só ficava mais livre durante o passeio no parquinho da cidade que era a rotina de todas as tardes.

   O pedido de João deixou os pais atordoados e tristes. Como assim, querer um irmãozinho? Ficaram pensando o poderia estar errado na vida do filho que o faz pedir um irmão. Lembraram que, no parquinho, ele não tinha muitos amigos, na verdade, não tinha amigos, sempre brincava sozinho e observava tudo ao seu redor. Nada passava despercebido aos seus olhos. João chegava a ficar com olhos fixos olhando outras crianças brincarem.  É certo que, algumas vezes, perguntava por que as outras crianças tinham irmãos e ele não.

   E, agora, o que fazer? Os pais de João não encontravam resposta. Observavam que, em casa, Joãozinho, como era chamado carinhosamente, era calado, ficava brincando no seu quarto e conversava com os bonecos da sua coleção. Por vezes, parava seu olhar para o nada e parecia viajar no tempo. Seus pensamentos voavam longe.

   Pensando no pedido do filho, os pais decidiram conversar com ele e expor a dificuldade para atendê-lo. Explicaram que, por causa da idade da mãe, era impossível lhe dar um irmãozinho. Durante a conversa, João escutava tudo com muita atenção. Todas as palavras, gestos e lágrimas que rolaram no rosto dos pais, tudo foi minuciosamente observado por ele. Quando terminaram a conversa, um silêncio profundo e incômodo aconteceu.

   Aquele silêncio profundo foi quebrado quando João. Olhando para sua mãe e seu pai, passou suas pequenas mãos no rosto de cada um deles, enxugou as lágrimas e disse com uma voz doce e suave:

– Adota um irmãozinho para mim!

Por Silvana Regina Ferreira

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