Um inverno a menos

Naquele inverno, ela decidiu fugir do frio do sul. Fez uma mala, separou as poucas economias que conseguira juntar durante anos e comprou uma passagem pra Brasília.

Ouvira dizer que lá, na capital federal, o dinheiro rola solto, nos lugares mais insólitos possíveis. Queria ver isso de perto. Se havia tanta grana assim, por que não requerer sua parte no quinhão?

Não conhecia ninguém. Os preços dos hotéis eram uma exorbitância. Atirou um charme em cima do atendente da portaria do hotel e puxou conversa. Ele parecia encantado com o sotaque dela. Explicou que os hotéis do plano eram caros. Se quisesse algo mais barato, teria que se distanciar para uma das cidades satélites.

E foi assim que ela conheceu várias cidades ao redor da capital. Estranhou a secura do ar e a miscelânia de sotaques das mais diversas regiões brasileiras. Mas conseguiu o intento de fugir do inverno com suas invernias, chuvaradas e vento Minuano.

Quando setembro chegou, ainda assistiu ao desfile da semana da Pátria, quase foi pisoteada por uma multidão ensandecida e no dia seguinte parcelou a conta da última pousada no cartão, comprou uma passagem no limite de crédito e voltou pro sul endividada, mas feliz. Não havia vivido o inverno daquele ano. Será que, em assim sendo, somaria um ano a menos em sua idade contada em invernos vividos?

Por Cleia Dröse

Texto integrante do projeto de exercício literário proposto pela Pragmatha Editora em suas redes sociais. Participe! Em caso de dúvida, converse com a editora Sandra Veroneze pelo email sandra.veroneze@pragmatha.com.br

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