Tarde demais

Na véspera da formatura, o telefone soou. Era tarde. Muito tarde.

Lorena espreguiçou-se e, jogando o braço sobre o criado mudo, deparou-se com o celular, o seu amigo nas horas certas e inimigo nas impróprias. Aquela era uma hora imprópria.

Estava cansada, cheia das formalidades com as quais teve que se envolver para a formatura nas últimas semanas. Não era o seu jeito. Acreditava que o significado das coisas estava nos atos e não nas solenidades. 

Tinha chegado até ali com muito suor. Foram os anos da faculdade mais os outros da especialização. Afastou-se de sua família e dos amigos para cursar aquela universidade pública no Uruguai, a única na qual passou no vestibular para Medicina. Era o seu sonho, mas tantos outros sonhos acabaram se perdendo no caminho. Naquele dia, tinha a sensação do dever cumprido mas, por outro lado, também a de que havia envelhecido uns 20 anos.

Precisava descansar para aguardar os pais na rodoviária, que chegariam no final da manhã. Sorte teve Lorena em ter o tio Paulo para pagar as passagens deles, gente humilde, sem condição financeira alguma. 

Mas com o tempo, tudo mudaria. Ela conseguiria recompensar os pais pelos sacrifícios e manter dignidade de vida com a sua profissão. Pensava em continuar por uns três anos no Uruguai e depois retornar ao Brasil com experiência sólida. Tudo mudaria. Faltava pouco.

No outro lado da linha, uma voz conhecida. Conhecida, mas distante. 

– Lorena? tudo bem com você?

– Sim, quem está falando?

– Maurício. Quero te cumprimentar pela formatura. Soube pela tua prima Magda que conseguiste realizar o teu sonho e que já estás trabalhando no Hospital Asociacion Española. Faz um ano que vimos buscando uma oportunidade para meu pai nesse hospital, que está com sérios problemas cardíacos. Falaram-nos que é hospital referência na área e tu sabes que temos condições financeiras para levá-lo. 

Mais de 10 anos passaram pela cabeça de Lorena. Maurício, na sua adolescência, tinha sido o seu grande amor. Amor difícil de medir. Foram quatro anos de um relacionamento ferrenho, só sustentado pelo sentimento, pois os seus mundos eram opostos demais, a ponto de chegar ao fim por imposição dos pais de Maurício.

Puxando um travesseiro sobressalente e colocando-o atrás do seu corpo, Lorena com um movimento brusco sentou-se na cama e continuou:

– Sim, por aqui as coisas são um pouco diferentes. Já estou trabalhando no hospital há um bom tempo na minha área de especialização, que é cardiologia. Justamente por isso tenho o telefone da recepção de cor para te passar. Ligue, que serás muito bem atendido. Somos referência no país em serviço e atendimento. Agradeço imensamente os teus cumprimentos.

Atirou o celular contra o guarda-roupas na sua frente, ouvindo o estampido com um certo mórbido prazer. Nem todo o dinheiro do mundo a faria esquecer o que passou.

Por Rosalva Rocha

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Texto integrante do projeto de exercício literário proposto pela Pragmatha Editora em suas redes sociais. Participe! Em caso de dúvida, converse com a editora Sandra Veroneze pelo e-mail sandra.veroneze@pragmatha.com.br