
A Academia Guaibense de Letras está ultimando os preparativos para publicação de sua antologia. A obra reúne textos em verso e prosa em homenagem aos 100 anos de Guaíba. O prefácio é assinado por Valmir Michelon. Confira!
“A verdadeira tortura é sentir e não dizer”, escreveu o professor e escritor Cláudio Moreno, citado por Walter Galvani no livro Crônica – Voo da Palavra.
“Mais livros, mais livres”, disse o filósofo espanhol Enrique Tierno Galván (1918–1986).
“Um livro é como uma janela. Quem não o lê é como alguém que fica distante da janela e só pode ver uma pequena parte da paisagem”, afirmou o poeta e filósofo Khalil Gibran.
Essas frases ajudam a compreender o espírito da obra que o leitor tem em mãos.
Guaíba completa, em 14 de outubro de 2026, cem anos de emancipação política. Ao longo desse primeiro século, a cidade cresceu, transformou-se e construiu sua identidade também por meio da palavra escrita. Testemunhei parte dessa trajetória: são mais de três décadas acompanhando a evolução da cidade e de seus escritores.
Cheguei a Guaíba no inverno de 1989. Ao descer a lomba da Rua São José e avistar a imensidão do lago, fui tomado por uma sensação difícil de explicar. Foi amor à primeira vista — pela orla, pela paisagem e pela cidade que, desde então, passou a fazer parte da minha história.
Naquele tempo, conhecer a história local exigia pesquisa paciente. Não havia internet nem celular. Foi na Biblioteca Municipal Darcy Azambuja que encontrei um exemplar do livro Guaíba – Terra e Povo, de Fernando Worm, obra fundamental para compreender o lugar onde eu pretendia viver. Era, à época, o único livro sobre Guaíba escrito por um morador da cidade. O destino acabou me enraizando de vez: vieram as aulas de Filosofia no Instituto Estadual de Educação Gomes Jardim, escola também centenária, e o estágio no jornal Folha Guaibense (hoje Nova Folha).
Com o passar dos anos, novos escritores surgiram e ampliaram o retrato literário de Guaíba. Nomes como Carlinhos Sant’Anna, Walter Galvani, Altair Martins, Luís Fernando Laroque, Valdivino Rodrigues, entre tantos outros, passaram a registrar em crônicas, contos, poemas e histórias o cotidiano, a memória e a alma da cidade.
A retomada da Feira do Livro de Guaíba, no final dos anos 1990, foi um marco importante. Em parceria com a Associação Movimento Pró-Cultura, criou-se um espaço na Feira do Livro para valorizar os autores locais. Fernando Worm foi o primeiro patrono guaibense da Feira do Livro, em 1994, seguido por Walter Galvani (2000), Altair Martins (2004 e 2019), Vera Salbego (2025) e, no ano do centenário, Valdivino Rodrigues (2026).
Hoje, essa diversidade de vozes encontra representação na Academia dos Escritores de Guaíba, entidade que reúne autores de diferentes idades, estilos e áreas de atuação.
Esta obra é reflexo desse encontro. São crônicas, depoimentos, histórias, poesias e imagens que homenageiam Guaíba — escritas por quem aqui nasceu e por aqueles que, como eu, escolheram esta cidade para viver.
Porto Alegre pode ostentar um dos mais belos entardeceres do mundo. Guaíba, por sua vez, oferece um dos amanheceres mais singulares: o sol que nasce sobre o lago, anuncia um novo dia e renova energias. É essa luz que atravessa as páginas deste livro.
Que venham novos escritores. Vida longa à Academia Guaibense de Letras. E que a palavra continue sendo ponte entre passado, presente e futuro, mantendo viva a história da Cidade do Sol Nascente.
Valmir Michelon
Foto: João Luís Carvalho