Qual o sentido e valor de estarmos indignados hoje em dia?

Se cada um reage de forma singular aos eventos externos, significando o mundo a seu jeito e singularidade, qual o sentido e o valor de estarmos indignados nos dias atuais? Fizemos esta pergunta aos coautores da antologia Indignados, da editora Pragmatha. Confira:

Leonardo Andrade – “É fundamental verbalizarmos o que nos incomoda, o que nos causa indignação. Temos que falar o que não quer mais calar, precisamos ser os porta vozes da mudança. Está insustentável a situação no nosso país. São anos a fio de desmandos, hipocrisia, impunidade e descaso. Mudam as siglas numa infernal sopa de letrinhas, mas o mal perdura. Chega de omissão, é hora de tomarmos as rédeas e pararmos de nos deixar enganar. Falar é o começo, mas temos que prosseguir e efetivamente promovermos uma grande mudança.”

Rosalva Rocha – “A indignação salva, uma vez que vira combustível para mudanças. Como viver, nestes tempos de dureza, sem reinventar-se a cada dia?”

Rosa Acassia Luizari – “O valor e o sentido de, hoje, estarmos indignados significa pensar a reordenação de concepções institucionalizadas na sociedade. É desnaturalizar a “ideologia da domesticidade” e o papel daqueles que legitimam as hierarquizações entre os gêneros e sujeitos de diferentes classes sociais. Convém que estas questões sejam historicizadas e não naturalizadas. A escrita torna possível a criação de múltiplos sentidos para o texto lido e apresenta caminhos diversos na perspectiva de superar visões padronizadas a respeito dos sujeitos que compõem a sociedade. É a re-criação do real por meio do ato de escrever, mas não uma recriação sem propósito. Penso e (re)penso a organização social da qual faço parte por meio da escrita como ato social, histórico e político.”

Tauã Lima Verdan Rangel – “A palavra indignação, por si só, é detentora de uma polissemia singular, revigorante e que nos exige a capacidade de não normalizar aquilo que deteriora, deturpa ou que atenta contra a dignidade de cada pessoa em seu âmbito mais particular. Indignar-se é não achar que a fome, a pobreza ou a violência são manifestações simples de uma sociedade caótica. Antes de tudo, indignar-se é a capacidade de lutar pelos direitos alheios dos emudecidos, invisibilizados, marginalizados com o mesmo afinco de quem luta por seus próprios direitos.”

Benigna Samselski  – “Penso que, se ignorarmos os descasos, desmandos, o desamor, a desumanidade, a falta de ética, o desrespeito e tantos outros absurdos que estão acontecendo, viveremos como porcos: na lama. O valor da indignação está na mudança e só depende de nós.”

Marcus Hemerly – “Quando se pensa, ou sente, o conceito de indignação, existe uma premissa de um cenário de inquietações fundado numa injustiça pretérita; um quadro que desdobra uma invectiva gratuita e indevida ao indivíduo indignado. À obviedade, esse não é um vetor absoluto, dada sua forte feição de subjetividade, pois ao revoltado sempre será revestida de lastro a sua insatisfação, real ou ilusória. No entanto, não lhe é tolhido o direito – e quiçá – dever, de indignar-se. Ao revés, seríamos máquinas, não humanos”.

Graziela Barduco – “Acredito que vivemos tempos sombrios, que parecem ficar a cada dia mais sombrios. Quando achamos que já vimos de tudo e que não há como piorar, absurdamente a situação consegue se agravar de forma ignóbil. Acredito que sentir-se indignado acabou virando um estado de espírito inerente ao fazer-se presente e consciente neste momento que estamos vivenciando. E penso que esta indignação é sinal de que não nos deixamos amortecer perante as mazelas que nos martelam diariamente”.

Angeli Rose – “Numa época “líquida”(Bauman) como a que vivemos, em que até as instituições sociais consideradas mais sólidas foram impactadas pelo capitalismo em suas diversas facetas, ficar indignado é sinal de que não se perdeu a sensibilidade que nos faz humanos. Indignar-se hoje é reexistir, dando a ver que uma vida importa em meio à banalização do mal, da violência, da mediocridade, do individualismo mais cruel. Indignar-se é preciso!”

Edmilton Torres – “A indignação é o sentimento que antecede a ação de revolta e de contestação, contra atitudes nocivas ou situações de injustiça, de exploração, de descaso ou de afronta ao indivíduo ou à sociedade. Hoje, no Brasil, estamos diante de um cenário de afronta à sociedade, pelos detentores do poder em todas as suas instâncias. É importante que demonstremos a nossa indignação, como sinal e prenúncio da nossa intolerância, principalmente contra a impunidade de agentes corruptos”.

Cílio Lindemberg – “Acredito que o valor e o sentido de nos sentirmos (e nos mostrarmos) indignados, hoje em dia, são imprescindíveis para sinalizar nossa insatisfação com relação à atual conjuntura política, sanitária, social etc. em nosso país. Essa indignação dividida se configura como uma das formas pelas quais nos expressamos em pedido de mudanças, mudanças reais e imediatas, que prezem pelo coletivo, de fato. Mostrar-se indignado, hoje, além de essencial, denuncia o lugar da revolução: nós mesmos.”

Giovana Schneider – “Tudo ficou mais claro, tudo o que vivemos é conforme o que nos ditam. A indignação, nos dá força para tentarmos mudar a situação em que nos encontramos, pode ser apenas um começo, talvez não dê em nada, mas, já é alguma coisa, pois não podemos ficar calados diante de tudo, e acreditando em tudo, sem opinar.”

Karin Tallini – “Indignação surge da questão de como vejo o amor e empatia. O amor vem do amor a si próprio e com o outro, o respeito que tenho a mim mesma, as minhas ideias e valores, aqueles que cada um traz dentro de si. A pandemia está fazendo com que esses valores associados às expectativas que tenho de mim mesma com o meu exterior, isto é, as pessoas que passam no dia a dia, ao meu redor, seja em caminhadas, passeios, visitas, encontros, reuniões ou simplesmente, uma conversa, fazem com que eu perceba que passaremos por essa pandemia e nossa sociedade vai aprender muito pouco com essa parte da nossa história, pois a pobreza de cada dia está ficando mais escancarada na pobreza que temos das nossas relações com o próximo.”

Marisa Burigo – “Para mim, significa a conscientização de que nada somos, de que nada podemos fazer, gritando na multidão, solitário, por descobrir-se um em mil. Somos apenas mais um na estatística daqueles que se tornam “os rebeldes”, mesmo que, com sutileza, dizem o que pensam. Nada muda. Porém, com toda a sutileza (ou não), da poeta que sou, continuarei andando, escrevendo, até que um dia, mesmo que pós morte, alguém lembre-se do que escrevi.”

Lin Quintino – “Estar indignado, hoje, é não poder fazer nada frente ao monstro que nos para, nos mobiliza e nos controla. Um monstro invisível que tem sobre nós o poder de vida e morte e ficamos impotentes, assistindo.”

Fernando Matos – “O mundo sucumbiu à escuridão, buscando valores materiais ao invés da Grande Evolução Espiritual. Quando a balança desequilibra a humanidade padece.”

Jania Souza – “Estou indignada com o descaso das políticas públicas voltadas para o homem de baixíssima renda, para seu sustento e da sua família. Essas ações não conseguem sanar esses graves problemas sociais de humanidade. Pergunto: por quê? A quem interessa tanta gente com fome, desempregada, doente, vivendo como bicho irracional? Onde está o Cristo em nosso coração?”

Laura Souza – “O meu motivo de estar indignada é saber que está nas mãos do ser humano o cuidado com o que vamos deixar para as próximas gerações. E mesmo assim a ganância destrói a natureza, e o que temos de mais precioso; nossas florestas, de onde poderá vir a cura para muitas pandemias. Também me indigna ainda ter crianças passando fome, mulheres sofrendo violência. Em um país divido por cores, pregando igualdade racial!”

Paulo Vasconcellos – “Mesmo que eu tenha as palavras para me reportar sobre a indignação, fiz uma ligeira consulta ao dicionário para complementar o meu sentimento. Até considero as minhas ponderações, certo ponto, moderadas, entretanto, as circunstâncias são de que não posso, de forma alguma, me esquivar e escrever: a repulsa, além de revoltante é causadora de desabafos que refletem raiva extremamente pura.”

Adriana Barbosa – “Acredito que, historicamente, buscou-se caminhar para um processo de crescimento nacional no sentido de se atingir o “melhor”. Porém, juntamente a essa caminhada, percebe-se que se tem muito a evoluir diante de tantas outras realidades internacionais, espalhadas pelo mundo num crescimento ascendente. Infelizmente, precisamos de muitas mudanças no âmbito social, de responsabilidade das grandes esferas de nossa nação. Somos “formigas” fazendo cada uma sua parte. Precisamos muito mais comprometimento nas ações, dos órgãos competentes, em todos os sentidos, além da busca constante de combate à corrupção. Por isso, acredito que hoje, ainda estamos indignados!”

Mario Antonio Barcelos – “No momento em que o mundo externo se transforma, percebo que o mundo interior de cada ser humano parece um tanto complicado, perturbardo. Venho notando que estamos numa dependência mútua de objetos, que até então eram obsoletos. Todos os ramos profissionais sofreram relevância mudança de hábitos, de metodologias profissionais, e nós estamos sendo empurrados à uma nova era. O medo transforma até aquele sujeito que tem tendências ao mal. Espero que não deixaremos de lado o real sentido dos valores que nossos ancestrais nos deixaram e que possamos a partir dessa era utilizá-los como forma de recomeço de uma nova convivência entre todos os povos que habitam esse espaço.”

Arlindo Almeida Júnior

“Penso que tudo que existe no momento de sermos nós, a nos indignarmos.

Vem do valor que estão dando ao caráter: visto que as falcatruas passaram a

Ser o normal e não o anormal. E a doutrina de muitos é sempre se dar bem,

Não importando ser é direito, certo ou faz jus, que tem classes que se locupletam,

Com valores que são do nosso direito e enriquecem com essa política nefasta…

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