O mundo

Desde que foi a São Paulo, Sara começou a entender o mundo de outra forma. Do barulho dos automóveis ao silêncio de crime, a cidade oscilava nos seus ouvidos. Tudo era diferente, muito diferente da vida redonda que levava em São Simão, prainha distante no litoral gaúcho.

Da vastidão do mar, passou a enxergar sobrados ladeados de outros sobrados, com as fachadas do térreo escondidas pelos carros dos proprietários.

A mudança ocorreu por força do amor. Fora ele o divisor de águas. Seu noivo a deixou meses antes do casamento. Por conta disso, resolveu aninhar-se próxima à sua única tia viva, a tia Isaura. Chegando em São Paulo, encontrou uma casinha próxima a ela e, de pronto, alugou-a.

São Paulo fervilhava na avenida mais próxima, a rua dos Pinheiros, mas no seu novo mundo, na vila que entrava e saía pela rua Amaro Cavalheiro, tudo era diferente. Na venda da esquina Sara comprava o seu pão diário e comentava sobre o clima com Seu José, o proprietário. Nunca lhe faltava encanador, eletricista, pedreiro ou algo parecido, pois nas redondezas a mão de obra era farta.

Com a vizinha, trocava mudas de margaridas para plantar no minúsculo canteiro do corredor lateral da casa, típica de vila – um sobrado apertado construído em um terreno com sete metros de largura.

Foi na vila que buscou consolo para suas mágoas. Foi na vila que percebeu que as diferenças não são tão consideradas em uma cidade grande. Ela vizinhava com aposentados que mal conseguiam pagar a conta da farmácia até empresários de pequeno porte. E todos conviviam bem.

Aos poucos, começou a retomar a sua vida. Jogou fora todas as lembranças materiais do passado e buscou renascer como mulher em um mundo muito diferente.

Fez amizades, começou a sorrir e até mesmo arrumou um emprego como costureira em uma loja da rua José Paulino, no centro da cidade. Lá ela encontrava gente de toda espécie e, talentosa que era, passou a ser respeitada pela freguesia. Foram poucos meses para ser promovida e virar chefe de costura das seis lojas da rede.

Da mansidão, voou para o burburinho do metrô, pelos atropelos nas calçadas e pelas buzinas dos carros. Mas virou mulher faceira, sem tempo nem espaço para pensar em qualquer coisa que tivesse dado errado na sua vida.

Por Rosalva Rocha

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Texto integrante do projeto de exercício literário proposto pela Pragmatha Editora em suas redes sociais. Participe! Em caso de dúvida, converse com a editora Sandra Veroneze pelo email sandra.veroneze@pragmatha.com.br

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