No compasso da vida

      Deitou-se na cama e chorou, depois do último olhar carinhoso do irmão que saíra com a chuva batendo nas costas. Ela fechou a porta tão lentamente, que parecia ter chumbo nos braços. Foi para o quarto e a cama foi consolo.

     Manhã de segunda-feira, a torneira pingava num ritmo contínuo, como um martelo sobre uma bigorna de ferreiro. A batida era seca, estridente, sobre um prato de lata azul que jazia dentro da pia, o único som dentro da velha cozinha cheia de frestas, pelas quais passava um vento frio e úmido.

      De barba feita, cabelos escuros, alto, braços fortes, usando roupas de trabalhador braçal, o homem sentado no lado esquerdo da mesa levanta-se de supetão e vai até o fogão, resmungando. Coloca mais duas achas de lenha dentro da pequena portinhola do velho fogão de ferro e atiça as brasas, que imediatamente voltam a estalar na madeira, fazendo compasso com os pingos d’água.

       O outro, rapaz, magro, loiro, de cabelos compridos amarrados com uma borracha de dinheiro num rabo de cavalo, resolveu, naquele momento, dedilhar sobre as cordas do violão que segurava no colo. O ambiente fica mais quente e os sons se tornam mais harmoniosos.

       O outro puxa a cadeira com força, fazendo um rangido estridente sobre o assoalho encerado e volta a sentar. O cachorro debaixo do fogão recolhe mais o rabo na intenção de não ser percebido. A mulher, sentada na cadeira do outro lado, com os olhos marejados, olha para o rapaz. As feições são parecidas com as dele, os lábios cerrados, rugas na testa, mãos calejadas de quem pratica lida dura diária.

       A mesa rústica de madeira, ladeada de mais duas cadeiras de palha, tem no centro uma toalha branca bordada nos cantos com pequenas flores coloridas. E, como acabamento, uma renda de crochê vermelha. Três canecas de alumínio fumegando sobre ela com o café quente, coado há apenas alguns momentos.

       Nas paredes, um pano de algodão listrado guarda os talheres separados por costuras bem alinhadas paralelamente. O quadro de uma santa enrolado com flores de plástico tenta abençoar toda pobreza. Duas fatias de pão caseiro, sobre outro prato de lata esmaltado branco, compõem o restante da cena bucólica.

       O rapaz para de dedilhar o violão, ergue-se da cadeira e estende lentamente a mão em busca de um pedaço daquelas duas fatias, estreitas sem nenhuma cobertura. Reverencia o homem com a cabeça, pedindo licença para fazê-lo.

       Como um raio com toda sua potência gélida eletrizante de cor azulada e fria, no mesmo instante, o homem arregala os olhos, pega uma faca, esbraveja dizendo que daquele pão o outro não comeria, precisava trabalhar para merecê-lo. Gritando, anuncia que música não enche barriga de ninguém e crava a lâmina, afiada, na mão do rapaz que ainda não alcançara o prato.

       O impacto foi tão violento que a mão fica presa na madeira. Em seguida, arranca novamente a arma letal e a joga sobre a toalha cuja cor alva foi se tingindo da mesma cor da renda de crochê. Sai batendo a porta, mas continua esbravejando palavras cujo significado já não se entende mais. A chuva forte com vento que vem de fora molha parte do chão naquele movimento brusco.

       A mulher grita:

     — Louco, se for assim, não volte. Brutalidade nessa casa, não!

    Baixa a voz, olha para o outro, corre da mesa ao fogão e pega o pano de prato já desgastado enrolando na mão que sangra muito, aperta com força para estagnar o ferimento.

       A toalha branca bordada, única peça mais delicada daquele ambiente, já tem nova cor e combina com o crochê que a decora. O rapaz geme de dor, apesar da sutileza com que ela tenta improvisar um curativo caseiro.

       Ela fala por quê? Por quê? O grito dela assustou o cachorro, que agora se esgueira junto à porta, pois quer achar uma saída. Aperta o rabo mais ainda sob as pernas. O rapaz abraça a mulher com carinho. Ela tenta explicar que as coisas estão difíceis e que o marido está muito nervoso.

     — Eu sei das dificuldades de vocês, entendo, mas preciso ir embora. Voltarei um dia para te buscar e o filho que tu esperas, vou protegê-los da fúria doente dele.

       Passa a mão sobre a barriga dela, dá um beijo na testa, pega o violão, que coloca sob o braço da mão ferida, com a outra abre a porta pela qual o “cusco” sai correndo por entre as suas pernas. Ela corre para o quarto, deita-se na cama e chora.

       Na mesa ficam a faca, as canecas e o prato com as duas fatias de pão, que permanecem intactas. O silêncio volta, reforçando a solidão dentro da cozinha. O fogo já não explode a madeira que virou brasa. Os soluços da mulher param, ela olha fixamente para o nada. Na cozinha, segue o som compassado do pingo da torneira sobre o prato esmaltado azul.

Por Verena Rogowski Becker

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Texto integrante do projeto de exercício literário proposto pela Pragmatha Editora em suas redes sociais. Participe! Em caso de dúvida, converse com a editora Sandra Veroneze pelo e-mail sandra.veroneze@pragmatha.com.br

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