
Um livro é feito de muitas mãos e esta é a característica principal de “Mulheres Negras em Ação”, organizado pela escritora Irlanda Gomes e publicado pela Pragmatha Editora. O livro apresenta relatos de vida que evidenciam a luta, o orgulho e a resiliência das mulheres negras de Guaíba, e constitui uma homenagem ao centenário da cidade.
O texto de apresentação é assinado pela professora e historiadora local Míriam Ericksson Leão.
Confira:
“Há mais de 100 anos, precisamente no ano de 1916, um jornal da antiga Pedras Brancas chamado “O Pampa” trazia em sua primeira edição uma coluna intitulada “A Mulher Moderna”. Quem a assinou? Não sabemos. Não aparece a autoria nem sob a forma de um pseudônimo. Assim, a escritora foi protegida da carga de críticas severas, proibições e, quem sabe, de rigorosas punições de membros austeros de sua família, todos preocupados com a preservação da imagem de menina-casadoira, perante as mordazes vozes que se levantariam contra ela na sociedade da época. Imaginem que era inconcebível uma mulher divulgar sua opinião crítica, muito menos através da palavra escrita e publicada, pois a imprensa pertencia ao mundo masculino, atendia principalmente à defesa das ideologias políticas, dos partidos políticos dominados e conduzidos somente por homens. A imprensa era como arma de guerra desferida contra o peito do inimigo.
A colunista foi corajosa, pioneira, atrevida, ficou na história por sua resistência, talvez não pela quantidade de textos, mas por ter dado os primeiros passos em um mundo onde o machismo ditava sem contestação as regras a serem seguidas. O livro “Mulheres Negras em Ação Guaíba” é uma Antologia escrita por moradoras guaibenses alicerçadas nas mesmas virtudes de nossa anônima personagem de 1916. Porém, na atualidade, apresentam mais um tema, outro protagonismo que se soma ao do passado. O sonho de serem mulheres negras livres de terem que viver sob os olhos do preconceito racial, no início do século XXI.
O que temos então? O que a Antologia aborda? Aborda a luta contra o machismo estrutural, agravado pelo racismo estrutural. Isso significa que, se ainda não conseguimos extinguir de nosso convívio estes comportamentos estúpidos e desumanos, não é a hora de baixar a guarda. Façamos da palavra escrita não a lança que fere, mas a luz que ilumina as consciências, que expande a visão de mundo para a conquista de relações não violentas e, acima de tudo, respeitosas.
A Antologia que ora nos é apresentada nasce para cumprir esta missão, dar continuidade a essa importante busca. Forjada em depoimentos de vida, se torna exemplo para o presente e para o futuro. Pela característica inspiradora que traz, com toda a certeza, será citada pelas mulheres negras, brancas e de todos os matizes de pele que ainda estão por nascer nesta terra.
O município, agora centenário, se alegra e, com orgulho e altivez, agradece às escritoras desta obra, dizendo bem alto: “Mulheres negras guaibenses, muito obrigado por este grande e importante presente de aniversário!”
03/11/26