Impotência

Senti vergonha. Ainda sinto. A cena se eternizou em minha mente. Os psicólogos me disseram várias vezes que talvez não tenha sido bem assim, que eu pare de me martirizar, mas nem o tempo, nem meus cabelos brancos conseguem amenizar essa dor e a vergonha que sinto.

Ela estava parada junto a um canteiro da praça, conversando com outra mulher. De repente, ele surgiu não sei de onde. Esbravejava, gesticulava, demônio saído de algum inferno de Dante. Agarrou-a pelos cabelos, enquanto xingava, dizendo os maiores impropérios. Depois a arrastou pelo braço, sempre a insultando. Senti que a arrastava e eu a reboque ia junto.

Senti vergonha. Sinto vergonha. Por que não a defendi? Eu era só uma criança, me dizem e eu repito para me consolar, mas essa vergonha não me abandona.  

Ainda ouço os gritos, as palavras de baixo calão ecoam em meus ouvidos, enquanto uma rua sem pavimentação é percorrida por passos trôpegos.

Duas horas depois ela estava morta. E havia mais uma criança órfã no mundo.

Por Cleia Dröse

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Texto integrante do projeto de exercício literário proposto pela Pragmatha Editora em suas redes sociais. Participe! Em caso de dúvida, converse com a editora Sandra Veroneze pelo e-mail sandra.veroneze@pragmatha.com.br

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