
Em “Fragmentos de História: As memórias de um famíliar com Alzheimer”, o autor Adroaldo Narciso aborda sua convivência com o avô, José da Costa Fonseca, que enfrenta o Alzheimer. No prefácio do livro, ele fala sobre as particularidades, desafios e momentos felizes da experiência. “A mente do meu avô se tornou um território movediço, um arquipélago de memórias desconexas, onde não há lógica cronológica, tampouco sequência narrativa”. Confira:
Prefácio
Escrever este livro não foi uma decisão difícil. Pelo contrário — a ideia surgiu com a naturalidade das coisas que nascem da convivência, da escuta atenta e do amor. O difícil, talvez, tenha sido a coragem de me reconhecer, no papel de neto e não de especialista, diante de uma condição tão complexa quanto o Alzheimer. O difícil foi admitir que o que eu carregava comigo não era um diploma em neurologia, nem qualquer formação em gerontologia, psicologia ou áreas correlatas da saúde mental. Carrego apenas a vontade, esta, sim, imensa, de eternizar meu avô. Um livro para seu centenário em 2027. De ouvir, enquanto é tempo. De escrever, antes que a névoa da mente se adense ainda mais sobre ele.
Meu avô se chama José da Costa Fonseca. Um homem de 98 anos, nascido em 1927, que tem vivido quase um século em intensidade, coragem, dignidade e histórias. Não é exagero dizer que sua trajetória daria um romance — ou talvez muitos. Ele foi comerciante, prefeito por três mandatos na cidade baiana de Olindina, irmão de muitos, pai de poucos e avô de muitos mais. Um homem de firmeza rara, de princípios que moldaram nossa família e que agora resisto em deixar se apagarem no silêncio da doença.
Hoje, ele vive entre as margens do agora e os fragmentos do que foi. Ainda se lembra de mim. Chama-me pelo nome, sorri quando chego, reconhece meu rosto — e essa centelha de reconhecimento é minha âncora, meu porto, meu fio de ouro.
Mas aos poucos, outros nomes que o cercaram por décadas já não fazem mais parte de sua paisagem mental. Minha irmã mais velha, Ana Nayra Narciso Dória, é uma estranha a seus olhos. Meu cunhado, Luiz Augusto do Vale Dória, já não o visita na lembrança. Seus três bisnetos — Luiz Augusto Filho, Pedro Henrique e João Guilherme — também não encontram guarida na memória de quem os viu nascer. Minha irmã mais nova, Nayahra, tampouco é lembrada. Samir e Ana Júlia, filhos do meu tio, José da Costa Fonseca Filho e Samira Iossef Fonseca, são agora apenas nomes que não ecoam mais em sua mente. E a dor mais delicada: ele já não se recorda do falecimento de minha avó, Maria José Borges Fonseca, sua companheira de vida.
Em contrapartida, ele ainda fala com segurança de meus pais, José Antônio Narciso Reis e Maria da Penha Fonseca Narciso Reis. Lembra-se também de Cassiana da Silva Souza, cuja guarda e responsabilidade foi entregue a meus avós e que, de muitas formas, simboliza uma extensão generosa dessa família. Curiosamente, minha esposa, Vanessa Actis Pires Narciso, jamais é associada a mim. No entanto, quando menciono que ela é neta de Coriolando Alves Actis, grande amigo dele, um sorriso lhe brota no rosto, como se um clarão iluminasse o escuro do labirinto. É como se o passado mais remoto — ou aquele envolto em afetos profundos — resistisse mais à erosão do tempo do que às lembranças mais recentes.
A mente do meu avô se tornou um território movediço, um arquipélago de memórias desconexas, onde não há lógica cronológica, tampouco sequência narrativa. É um labirinto onde o passado se esconde atrás de portas trancadas, mas onde, vez ou outra, escutamos o tilintar das chaves. Às vezes, as chaves estão em uma palavra, um cheiro, uma canção, um objeto da casa, uma fotografia. Outras vezes, o acesso se dá por meio do silêncio, da presença paciente, de um olhar demorado que dispensa perguntas.
E foi assim que decidi iniciar este projeto: não como um especialista em demência, mas como um neto que se recusa a aceitar que a história de seu avô se perca. Se a memória é o que nos faz humanos, então negar-me a escutá-la seria renunciar a uma parte de mim mesmo. Mais do que um resgate, esta é uma travessia — e toda travessia exige coragem. Coragem para escutar o que já não pode ser dito com clareza. Coragem para aceitar as ausências e, ainda assim, encontrar beleza nos retalhos do que restou.
Neste livro, proponho um exercício duplo: primeiro, de escuta. Escutar as histórias que emergem entre pausas, hesitações, repetições. Escutar o que se diz e o que se cala. Depois, de reconstrução. Pegar esses pedaços desconexos e dar-lhes forma narrativa, sempre com respeito, sempre com cuidado. Como quem varre cacos de uma taça preciosa, estilhaçada pelo tempo, mas ainda refletindo beleza em cada fragmento.
“Fragmentos de História: As Memórias de um Familiar com Alzheimer” é, antes de tudo, um ato de amor. Não escrevo para provar nada a ninguém. Não busco aqui precisão histórica, nem fidelidade aos fatos tal como aconteceram. Escrevo porque quero guardar o que ainda é possível. Porque acredito que, mesmo quando a mente falha, o afeto permanece. Porque, na fragilidade da velhice, há uma dignidade silenciosa que merece ser registrada.
As histórias que meu avô conta são um mosaico de real e invenção. Às vezes, ele acredita estar falando com um irmão já falecido, outras vezes menciona nomes de infância com nitidez surpreendente. Há dias em que sua fala se confunde com sonhos, como se estivesse narrando o que viveu durante o sono. Mas em todas essas histórias, há uma centelha de verdade — e é essa centelha que quero preservar.
Compreendi que não preciso ser médico para ajudar meu avô. Preciso ser neto. Preciso ser presença. Preciso ter paciência. O Alzheimer nos ensina a desacelerar, a ouvir sem pressa, a repetir quantas vezes forem necessárias. Ensina que a memória não é só individual, é coletiva. E, se ele esquece, que eu lembre por nós dois.
A convivência com meu avô tem se tornado uma escola afetiva. Descobri, por exemplo, que o silêncio pode ser uma forma de comunicação. Que o toque no ombro, o carinho no cabelo, a mão dada no fim da tarde, podem dizer mais do que mil palavras. Descobri que, mesmo esquecendo nomes, ele ainda sente. Sente o amor, sente a ternura, sente quando está cercado de afeto.
Aos poucos, fui me desapegando da ideia de “resgatar tudo”. Não é possível. O que se perdeu, se perdeu. O que ficou, porém, carrega uma força simbólica imensa. Cada história que ele ainda conta é um milagre. Cada lembrança que emerge é uma oferenda. E meu papel aqui é recebê-las com gratidão, transformá-las em texto, e oferecer ao leitor não uma biografia tradicional, mas uma narrativa sensível, delicada, que transita entre o real e o imaginado.
Este livro não tem a pretensão de falar sobre Alzheimer como fenômeno clínico. Deixo essa tarefa para os especialistas. O que proponho aqui é um testemunho íntimo, um mergulho nas zonas crepusculares da memória de um homem extraordinário. Um homem que plantou árvores, educou filhos, liderou pessoas e abençoou netos. Um homem que, mesmo agora, mesmo com a mente fragilizada, continua sendo farol para nossa família.
Espero que os leitores compreendam que esta é uma obra sobre o amor diante do esquecimento. Sobre como a vida persiste, mesmo quando o tempo insiste em apagar seus rastros. Sobre como cada um de nós pode se tornar guardião da história de alguém. Talvez, ao ler estas páginas, você se lembre de seu próprio avô. Ou de sua avó. Ou de qualquer pessoa que, em algum momento, começou a esquecer. E talvez se inspire a escutar com mais atenção, a escrever, a guardar.
Porque a memória é frágil. Mas o amor é persistente.
Adroaldo Narciso
08/06/26