Exercício literário: “Madrugada de assombro”

Por amar

Foi medo o que vi nos olhos das pessoas quando saí pela primeira vez da floresta. Era uma noite clara e fria, com aquela paleta de cores que no cinema faz cenas bucólicas e de mistério. Para toda a gente, eu significava terror e perigo. As janelas iam se apagando atrás de mim, à medida que eu mapeava passo a passo a pequena cidade incrustada no pé da montanha e que por séculos eu chamaria de lar.

Com o tempo, os moradores se acostumaram. Entenderam meu calendário noturno de passeios e minha personalidade amistosa, porém reservada. Eles lá, eu cá, convivendo em perfeita harmonia. Do entardecer até os primeiros raios de sol, a cidade era minha. Durante o dia, deles. Nunca houve qualquer encontro.

Hoje ninguém mais tranca seus estabelecimentos. Frequento a cafeteria, pego mantimentos no armazém e até escolho sem pressa minhas roupas novas e sapatos. Em datas especiais, os moradores deixam presentes que se tornam lindas lembranças. Retribuo com plantas, flores e frutas do meu jardim, do topo da montanha. O dono do cinema tem meu apreço especial. Sempre que vou à cidade, ele deixa uma sessão preparada para mim, com pipoca e refrigerante. Foi lá que aprendi como chamam meu povo: monstro.

Pois agora é nos meus olhos que reside o medo. Descobri que gosto deles e me sinto devastado só de pensar que posso perdê-los.

Por Sandra Veroneze

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Madrugada de assombro

Por uns cinco minutos Joseph não teria passado pelo pavor que passou. Desconfiado há tempos de que sua esposa o estava traindo com o comerciante da esquina, resolveu sair na noite fria e, já com o revólver nas mãos, rumar até a casa do dito cujo. Ele sempre fora um homem dos extremos.

Chegando lá, olhou à espreita por uma fresta da janela pela qual brotava uma fraca luz, e pôde perceber que Aristides – esse era o nome do comerciante – nada mais era do que um grande borracho. Estaqueado em uma cadeira estilo Luis XV, lá estava ele com os braços abertos desfalecidos, caídos em direção ao chão, com a camisa aberta e um barrigão imenso saltando dela. Com medo de que o homem morresse ali sozinho e sem recurso, tocou na porta que estava aberta e, em pouco tempo, conseguiu arrastá-lo para a cama mais próxima, que denunciava que não fora palco de nada naquele dia. Sentiu-se duplamente aliviado.

Aristides não viu nada, não perguntou nada, não era nada.

Joseph, ao sair, nervoso e espantado, deparou-se com um súbito temporal, jogando-o de um lado para outro na calçada estreita, face a volúpia do vento.

Chegando em casa molhado e arrasado – literalmente arrasado pela chuva – encontrou Maria na cama, à meia luz gritando:

– Bem que eu sempre desconfiei que tu me traías!

Por Rosalva Rocha

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Pedro Perdido

A rotina de nossa família incluía a leitura de histórias ao irmos deitar. Gostávamos mais quando a tarefa era realizada pelo nosso pai. Ele impunha vozes aterrorizantes às personagens favoritas. Nossas três camas ocupavam quase todo o quarto.

Minha irmã de cinco anos podia escolher a história nas quartas feiras, algo que eu e meu irmão gêmeo odiávamos, pois persistia nas lendas de princesas e fadas. Por mais que o papai desse um tom de batalha quando os soldados as resgatavam das torres onde permaneciam confinadas, na maioria das vezes adormecíamos no tropel dos cavalos, sem esperar o desfecho.

Nossa história favorita se chamava Pedro Perdido. Com a coberta puxada até o pescoço, os olhos fixos na figura do papai, não perdíamos um detalhe, mesmo sabendo a história de cor. 

Pedro havia desobedecido aos pais e entrado na floresta de Pinheiros que circundava a casa. Havia ordens expressas para não ultrapassar o velho poço de onde a família no tempo da avó Biba tirava a sua água para o consumo. A floresta, que à luz do dia parecia tão fascinante, ao entardecer formava um jogo de sombras, fazendo com que não fosse mais possível achar a saída.

Pedro ficou perdido e a fada das trevas, que morava no poço fechado, acordara do seu sono milenar e não permitia que Pedro retornasse. Assim, quem se atrevesse a espiar pelas cortinas veria Pedro Perdido perambulando entre as árvores até hoje. Parecia uma figura alta, esguia e trôpega, porque já era muito velho, tentando encontrar um caminho que lhe mostrasse o dia, nas madrugadas escuras e assombradas de sua vida.

Papai saía devagar do quarto, apagando a luz de cabeceira. Abríamos os olhos assim que a porta fechava e podíamos jurar que escutávamos o Pedro Perdido chamando por nós.

Por Elsa Timm

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Terror noturno

Os demônios e fantasmas chegam com a madrugada, fazem questão de mantê-la assombrada.

Inevitavelmente se fazem presentes, arrastam correntes e produzem barulhos diferentes. Despertam sentimentos latentes.

Trazem à tona dores já quase esquecidas, cicatrizes esmaecidas e memórias propositalmente perdidas.

Guardiões de memórias que quero apagar não me deixam as deletar nem expurgar, insistem em as perpetuar.

Sugam minha energia pelos dedos, exaltam meus medos e brincam com meus segredos.

Preciso exorcizá-los, mas não consigo, fico paralisado ante ao perigo e já não encontro mais abrigo.

Lutando para sobreviver, conto as horas para o amanhecer e torço para a noite logo fenecer.

Com a luz as sombras desaparecem e as inseguranças momentaneamente adormecem.

A luz do sol me aquece, restabelece e agradeço-o com uma emocionada prece.

Terei todo o dia para me preparara para a próxima noite e seu inevitável açoite.

Por Leonardo Andrade

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Madrugada de assombro

Três da madrugada. Dora escutou um barulho vindo da porta da frente.

Parecia nitidamente alguém forçando a maçaneta. Teve medo.

O barulho cessou. Dora espiou pela cortina da janela e viu um vulto se afastando da casa.

Pensou em ligar para a polícia.

Aproximava-se do telefone quando ele tocou.

– Dora, não se assuste! Era eu que estava aí na porta…

– Por que, Arnaldo?

– É que tentei entrar para pegar de volta os presentes que lhe dei. Ao terminarmos você se recusou a devolver. Agora estou com uma nova namorada e que queria repassá-los a ela. Assim não preciso gastar!

– Que horror, Arnaldo! O sovina de sempre!

– Você está é com ciúmes. É porque ainda me ama!

– Deus me defenda! Vou é informar a polícia!

Por Marilani Bernardes

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Madrugada tenebrosa 

Vinha Tarcísio Iso, meia-noite, passando, na avenida central, por uma ruela que divisa com os muros do cemitério. Ouviu as badaladas do sino. Silêncio total. Ele sentia medo. Começou a ter calafrios. 

Algo acontecia. Inesperado, aponta no começo da rua um vulto. Alma penada! Entrou em desespero e realizou orações de proteção. Assustado, não segura a tremedeira. No automático, corre e bate o recarde.

Cedo do dia encontra com amigos no bar. Estava João falando do susto que tivera, meia-noite, ao chegar perto do cemitério. 

Tarcísio Iso entra na conversa: esta sua alma penada era eu.

Por Francisco Aquino

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Madrugada de assombro

Os meus medos faziam com que eu corresse de mim mesmo e com pavor de minha própria sombra. Não suportava mais a clausura de minha memória que me aprisionava; eu precisava me libertar das correntes que prendiam àquele ser impotente diante do medo.

A angústia e o desespero permeavam os meus dias, que se tornaram cada vez mais funestos. Os gritos retumbavam em meus ouvidos e me confundiam cada vez mais. A loucura parecia perene.

Mas eu precisava me libertar das correntes que atrelavam os meus pensamentos e os deixavam conturbados.

Eu saí a esmo, numa madrugada gélida de um inverno congelante, correndo do monstro que me aterrorizava e cada vez mais me alcançava. Eu não tinha coragem de olhar para trás. Eu precisava deixar todo aquele tormento e dor sepultados no passado; só assim conseguiria me libertar de vez daquelas correntes e do monstro horrendo que me prendeu na masmorra do meu ser.

Foi então que criei coragem, me lancei com tudo ao chão e senti quando ele passou subitamente sobre mim, sem perceber devido à sua fúria mordaz.

Levantei-me forte como a Fênix; sem correntes; sem fantasmas me atormentando e, sem medo, caminhei livre, alçando um voo nunca antes alcançado. No alto de uma colina, bati no peito e gritei aos quatro ventos que sou livre para ser quem eu quiser! Sem medos, mesmo que eu caminhe sozinho em uma madrugada de assombros.

Por Sandra Bertollo

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Madrugada de assombro

Samuel é um adolescente regradinho, cumpridor das obrigações que lhe dá a família. Bom aluno, respeitoso, chegou ao ensino médio sem maiores problemas. Sempre chega cedo em casa, conforme regra dos pais.

Pois justo naquela noite teve a infeliz ideia de ficar um pouco mais. A conversa estava boa, a paquera mais ainda. Pela primeira vez, Sheila olhava pra ele com um intenso brilho no olhar. Como lembrar de regra de horário diante dessa maravilha? Foi ficando. Quando se deu conta, as doze badaladas já haviam soado há muito tempo.

Despediu-se com o coração partido e saiu andando pela rua um tanto escura pela falta de lâmpadas que os responsáveis “esqueciam” de trocar.

Já estava quase chegando ao quarteirão de casa quando despertou de seus devaneios e percebeu uma estranha figura, que parecia correr meio desiquilibrado em sua direção. Seria um bêbado? Um assaltante? Um serial killer? Deus do céu! Por que fui me atrasar justo hoje? Sheila, Sheila, por tua causa estou nesta enrascada — pensava.

Apressou o passo o mais que pôde e entrou pelo portão envidraçado. Antes de conseguir fechar com o ferrolho por dentro, se deu conta de que a figura estava a dois passos dele. Pensou em gritar, chamar o pai, a mãe, a família toda. Assumir sua desobediência às regras e salvar sua vida. A voz sumiu na garganta de uma boca aberta, sem grito.

Foi quando a figura lhe dirigiu a palavra: “Samuel, o que andas fazendo a essa hora pela rua? Ainda bem que estou aqui para te proteger. Lembra de mim? Alfonsus, o guarda noturno desse quarteirão. Entra logo. Fica tranquilo que não vou dizer a ninguém que te vi chegar às duas da manhã. Boa noite!”  

Por Cleia Dröse

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Noite fatídica

Era ele, outra vez!

Quando as ruas ficavam desertas havia alguém que fazia questão de aparecer, sem se importar com horário e nem com o lugar, porém precisava estar ali vagando, como espectro em forma de ser humano.

Moradores assustados tentavam decifrar o enigma. Qual a razão da sua aparição? — muitos se perguntavam.

E assim o episódio se repedia todas as noites. Era o silêncio que perturbava o sono. Talvez o medo do desconhecido que atormentava os lúcidos.

O tempo foi passando, a situação não mudava e então um corajoso ou entediado saiu para tirar satisfação, seguido pelos demais. O elemento não se intimidou. Estavam todos parados uns olhando para os outros.

Foi quando o sujeito disse: eu sou o fantasma que vocês criaram. E, assim, afastou-se lentamente, enquanto os moradores voltavam para as suas casas.

Por Nelci Bach

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O louco da madrugada

Já passava da meia-noite. Gerusa olha para o relógio. Vai caminhando receosa. Logo naquela noite os motoristas dos ônibus resolveram entrar em greve. Na troca do plantão aconteceu a confusão do paciente morrer na entrada do PA. Até chamou um Uber, mas foi em vão, pois foi cancelado duas vezes. O negócio era ir a pé mesmo. Precisava chegar em casa, sua mãe estava sozinha, a cuidadora sempre saía às 20h. Tentou ligar, mas o celular não completava a chamada. A ventania estava demais. De repente ouve passos, seu coração acelera. Lembra do louco da madrugada, que virou uma lenda urbana no seu tempo de infância. Aumenta o passo, dá um arrepio na espinha, resolve correr… quando sente uma mão no seu ombro. Dá um grito, suas pernas ficam bambas. Tudo escurece.

Quando acorda, está em casa. Sua mãe com os olhos arregalados, e ao seu lado o Marcos, filho da vizinha.

— Minha filha, como você está?

— Não sei, mãe. — Ela está ainda um pouco zonza, e continua: — O que aconteceu? O que o Marcos está fazendo aqui?

— Ele que te trouxe. Eu estava na janela e ele passou. Pedi para ver se te encontrava, e ele te trouxe nos braços…

— Então era você, pensei que fosse o louco da madrugada. — Gerusa fala, pensativa.

— Acho que ele não está mais por aqui, deve ter se mudado. — Marcos responde, e continua: — Hoje em dia as crianças não acreditam mais em lendas urbanas.

Eles acabam rindo juntos.  

Por Giovana Schneider

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A sombra no meio da estrada

Na madrugada fria de inverno, Ilma caminhava pela estrada com sua família. Um vento uivava, acompanhando-os. Era um breu naquela estrada sem fim. A imaginação começava a tomar conta com suas fantasias de assombração. O silêncio no meio das conversas ameaçava desmaiar no medo que já assolava o coração de cada um. De repente, lá longe uma sombra parada no meio da estrada. Pararam assustados… Seria um lobisomem ou uma alma penada? Se olharam… As crianças choravam, os adultos tremiam, o medo se apossava de todos! Se juntaram e abraçados seguiram em direção à sombra, que começou a se mexer, num balanço vagaroso. O frio congelando, o medo apertando, a imaginação assustando. Se aproximaram devagar e medrosos… quando pararam perto da sombra… Era apenas um grande galho de uma árvore frondosa que balançava com sua sombra espalhada no meio da estrada. Que susto! Foi uma gargalhada geral!

Por Roselena de Fátima Nunes Fagundes

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Mente úmida e gélida

Aos poucos, os borrões iam tomando forma, e eu percebia que meus olhos iam se adaptando à luz da noite. O pouco que percebia estava borrado. Minha cabeça doía e, ao passar a minha mão, senti um líquido quente deslizar na minha testa. Devia ter batido a cabeça ao cair. Quando retomei a consciência, percebi que estava deitado sobre folhas secas no meio de uma floresta úmida e gélida. Havia galhos e pedras ao redor. Devo ter tropeçado e caído ao fugir de algo. Minhas roupas estavam sujas e com rasgos. Sentei. Respirei fundo. Avistei uma sombra humana vindo em minha direção. Levantei. Caminhei. Corri. A figura pulou sobre mim. Era eu mesmo.  

Por Gilberto Broilo