Exercício literário: “Ciclista na chuva”

“Ciclista na chuva” é a imagem desta semana do exercício literário proposto pela Pragmatha Editora em suas redes sociais. Os escritores são instigados a produzir um texto em prosa inspirados na imagem. Os exercícios são publicados sempre aos domingos, tanto no Facebook quanto no Instagram, e os textos recebidos, e selecionados, às sextas-feiras. Participe! Em caso de dúvida, entre em contato com a editora Sandra Veroneze pelo email sandra.veroneze@pragmatha.com.br. Abaixo, os trabalhos recebidos nesta semana.

O funcionário exemplar

Manhã de segunda-feira. O tempo está fechado. Logo deve cair chuva forte. Mas isso não é impeditivo para Lucas. Pega a bicicleta e sai para o trabalho.

No meio do caminho começa a chover torrencialmente.

Chega encharcado à loja onde trabalha. Tudo fechado.

Espera um pouco e liga para o chefe.

– Tá louco, rapaz! Com essa tempestade não vou sair para abrir a loja! Vá para casa. Não vamos abrir hoje!

Lucas pensa:

– Eu saí com minha bicicleta, mas ele não quis sair com sua camioneta! Até rimou!

O rapaz volta para casa, ensopado.

– Amanhã pedirei um aumento – decide.

Por Marilani Bernardes

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Chuva e amor

Recolheu a lona que cobria o seu pequeno trailer de cachorro-quente na orla do Lago Guaíba e, mesmo com a chuva escaldante daquele sábado sem grande movimento, colocou o capacete. A bordo da sua velha bicicleta, saiu sorrindo como se compactuasse com a alegria da chuva, que aparecera sorrateiramente no início da noite para molhar as plantações que estavam quase perdidas.

Era menino do campo, que só mudou para a capital em função de trabalho. A chácara de seu pai não mais abrigava financeiramente os cinco filhos. Mas conhecia muito bem as necessidades da terra e da mãe natureza como um todo. E foi sorrindo que chegou em casa, sendo aguardado por Maria, sua companheira de vida há cinco anos, menina pobre, batalhadora, costureira de um ateliê de calçados e cheia de sonhos como ele.

Juntos, tomaram um café e recolheram-se para a cama, ninho que sempre os amparou. Antes de dormir, agradeceram pela chuva e pelo amor e, mais uma vez, reforçaram o propósito de trabalharem com afinco para conquistar o seu tão sonhado pedacinho de chão longe da capital.

Por Rosalva Rocha

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Destemido

Enfrentar tempestades é uma das minhas qualidades.

Aprendi desde cedo a não ter medo, a encarar, a colocar o dedo.

Não uso guarda-chuva nem qualquer proteção, vou de peito aberto cumprir minha missão.

A calmaria não leva o barco ao seu destino, lição entendida e assimilada desde menino.

Não fujo dos pingos, cada vez maiores, nem das poças que se formam nos arredores, são meros detalhes, pormenores.

Desvio de árvores caídas, peças largadas e perdidas, armadilhas sutilmente escolhidas.

Ignoro relâmpagos e trovões assim como demais truques e geradores de ilusões.

Sigo em frente, pensando no regar da semente e no arco-íris que logo se fará presente.

Olho a intempérie de outro jeito, além do óbvio problema e do defeito, vislumbro o que ela possibilita que seja feito, sempre há algum positivo efeito.

Permaneço atento às condições do vento, alternando minha posição a cada momento.

Logo ela vai passar, o sol voltar e uma nova realidade imperar, nada pode me parar, eu vou chegar, pode esperar.

Por Leonardo Andrade

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Notícia molhada

“Biiiip, biiiip, biiiiiiiiiip!”

O trânsito estava enlouquecido. Quando ele saiu, sua atenção estava toda voltada para o envelope e nem por um segundo pensou no horário ou olhou para cima antes de pegar a bicicleta. Precisava chegar na casa dos seus pais logo, e a magrela lhe pareceu a melhor solução. Ainda bem que a mochila era impermeável.

Mariana tinha lhe chamado para conversar naquela tarde. O envelope jazia em meio às duas xícaras de café. Era impressionante como meia dúzia de palavras conseguiam mudar uma vida tão prontamente. Ou várias.

Ele agora pedalava em meio à chuva a caminho da sua antiga casa, pensando em como dar a notícia aos pais. Como eles reagiriam? Como começar essa conversa embaraçosa? Como agir depois que tivesse contado tudo? Ia ser uma mudança e tanto.

A chuva continuava a cair, impiedosa. O trajeto de cerca de dez minutos estava quase completo, e ele estava encharcado. Mas era importante. A bicicleta parou. No meio de tanta água, o envelope restava seco, quase queimando, na sua mochila.

Por Monique Rodrigues

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Após a tempestade, um brilho de lua

Encerro mais um dia de trabalho árduo. Do lado de fora da fábrica, dou uma alongada no corpo cansado, olho ao longe e vejo uma nesga de sol amarelando o topo da montanha azul. Apresso o passo, pego a minha bicicleta e penso: chegarei em casa antes do anoitecer.

Quando alcanço a rua, sinto-me estranho e tão nublado quanto o tempo, que de uma hora para outra mudou completamente, anunciando uma tempestade. Pedalei feito louco por 50 metros entre rajadas de vento, poeira, relâmpagos e trovões. Não demorou muito e todas as nuvens desabaram em proporções bíblicas. Não pedi abrigo em lugar nenhum, pois não via a hora de chegar. Vez por outra, eu olhava para cima e via telhas e tampas de caixas d’água cruzando os ares. A rua virou um rio e os carros eram levados na correnteza.

Desci da bicicleta e a empurrei com muita dificuldade, morro acima, até chegar. Encharcado, subi pela escada e cheguei ao quinto andar. Que alívio! Por sorte, naquele dia, lembrei-me de fechar as janelas antes de sair. Abri uma fresta para entrar um pouco de ar e dar uma olhadela na rua. A ventania continuava, mas do lado oposto.

De repente, sem querer, meu olhar foi em direção a uma janela do prédio que fica em frente. A minha vizinha estava lá do jeitinho que veio ao mundo. Quando ela percebeu meu olhar atrevido, se envolveu em um lençol e fechou violentamente a janela. Em menos de três minutos, olhei a rua e vi quando ela passou correndo, encharcando a barra do lençol e gastando sua reserva de choro.

Desci imediatamente, descendo os degraus de dois em dois. Corri atrás, mas sem sucesso. De longe pude ver quando ela pisou em falso no início da velha ponte quase submersa e sumiu. Desabei! Ajoelhei, mas entendi que rezar não ia adiantar. Fiquei ali chorando e a chuva tentando lavar meus remorsos. Voltei destruído! Tirei a roupa molhada logo na entrada da área de serviço, cheguei à cozinha e, ao invés de jantar, preferi um café quente.

Depois de avisar a algumas pessoas e acalmar um pouco meu coração, fui caminhando nu pela casa e entrei no quarto. Muito assustado, dei um grito que foi ouvido em todas as periferias. Eu vi um lençol molhado amontoado no chão e, sobre a maciez perfumada de meus lençóis, lá estava ela, como se nada tivesse acontecido.

Por Goretti de Freitas

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Dias de luta

O dia não havia sido fácil. Agora, do nada, cai este toró. Acho que o certo, era não ter levantado — pensou. Estava trabalhando desde as 4:00h da manhã. Hoje não podia faltar à faculdade. Mas o negócio estava difícil, não poderia chegar assim para estudar, estava toda encharcada. Tinha que passar em casa. Ela pensava e pedalava. Quando, mais à frente, aquele mundão de água veio ao seu encontro, nada mais enxergou. Que motorista mal-educado, desnecessário fazer isso — pensou. Bom, achou melhor parar, e esperar o toró dar uma trégua.

Ficou encostada embaixo de uma pilastra, pensativa, olhando para chuva. Na sua face, lágrimas, e água da chuva se misturavam. Seu pai havia morrido na semana passada, ela agora era o “homem” da casa, sua mãe estava doente, tinha uma irmãzinha e um irmãozinho, eram gêmeos. Eles só tinham ela. O toró começou a dar uma trégua. Ela montou na bicicleta. E partiu. Todos temos dias de luta. Não podemos fraquejar. Este é o lema.

Por Giovana Schneider

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Encontro molhado

Praguejei baixinho ao sair da loja de presentes. O canal do tempo que consultei ontem deveria estar se referindo a Marte. Inferno, murmurei. Não havia jeito que não fosse enfrentar a chuva gelada neste outono imprevisível.

Eu tinha escolhido minha melhor roupa para vestir, mas teria que ver como ela ficaria ensopada. Era um dia importante.

Recordei como a conheci há um mês, numa época de pandemia. Sentada na biblioteca, rodeado de livros, ela mal me olhou quando entrei para buscar o livro de que precisava para completar o meu trabalho sobre entomologia. Reparei no lápis que segurava e com o qual batia nervosamente na mesa, como se isso fosse apressar a sua leitura. Sentei-me perto da janela, abri o meu livro, mas olhava fascinado para aquela linda imagem perto de mim. Não parecia ter me notado, assim pude observar detalhes sem que ficasse constrangido. O cabelo escuro e longo tapava parte da página. Parecia tão concentrada que não reparou quando seu braço encostou na garrafinha de água ao seu lado e, caindo, inundou a mesa. Pulei da minha cadeira, junto com ela, levantando alguns livros enquanto ela afastava outros.

– Que descuidada – falou, enquanto procurava lenços de papel em sua mochila.

Segurei os livros enquanto tentava conter a pequena inundação. Olhei os títulos. Pareciam se referir a crianças. Crianças desenham e comunicam e A interpretação do desenho infantil, entre outros, que estavam agora na mesa ao lado. Sorrindo, apontei para eles:

– Crianças brincam com água enquanto leem…

Apesar da máscara que usava, consegui ver que sorria também, agradecendo pela ajuda.

Ela decidiu deixar os livros espalhados secando enquanto me convidava para tomar um café no barzinho da faculdade, quase sempre vazio nesta época.

Não prestei muita atenção no que dizia, pois fui tomado por tal encantamento que olhava as mãos gesticulando, o modo como afastava o cabelo, ou mexia o café com a colher.

Sempre achei que o amor à primeira vista era enredo para romances e filmes. Lá estava eu, sentado, abobalhado, segurando a flecha que atravessava o meu coração.

Nas semanas que se seguiram, descobri que também viera de longe e morava num pequeno apartamento que dividia com as amigas do curso de psicologia. Relutante em sair da rotina exaustiva no meio de tantas provas e trabalhos, evitava qualquer outro contato que não fosse pelo celular e em horários que se permitia uma pausa para descansar. Então começava o meu dia ensolarado, festivo e alegre. Conversávamos sobre tudo e achei que nem era possível encontrar alguém com quem falar sobre o inseto-que-habitava-a-floresta-amazônica e não virasse tedioso.

Chegou o dia, então, em que concordou de nos vermos. Decidi passar em uma loja na esquina perto de onde morava e comprar o chocolate que a vi comendo, em uma das nossas conversas na webcam. Ao sair da loja, encontrei esta chuva não prevista. Achei melhor não me atrasar. Ajustei o capacete, guardei o chocolate na minha mochila impermeável e segui com minha bicicleta no trânsito que começaria a congestionar em pouco tempo. Sorri feliz e pensei:

– Vamos lá! Nossa história sempre tem água para começar.

Por Elsa Timm

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Andando na Chuva

Passeando pela cidade, curtindo a vida e resolvendo problemas diários na cabeça. Sentia pancadas de chuvas fortes que me lavavam até a alma. Caos na cidade. As ruas pavimentadas apresentam carências de escoamento. Transtornos com alagamentos, pedras caídas, barreiras deslizando, casas destruídas e vidas perdidas.

Fortes chuvas em reservatórios são soluções: água para a seca e plantio. 

A água cumpre seu ciclo e escorre procurando seu rumo, passando em busca dos rios, dos mares.

Por Francisco Aquino

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Sextou

Eduardo, depois de um banho bem quente e revigorante, com seu roupão felpudo, sentou-se no sofá de sua sala ampla e confortável, junto à sua esposa Mônica.

A lareira estava acesa por sua empregada Irene, que foi dispensada para o final de semana, em troca por ter trabalhado num sábado pela manhã. Não era inverno, mas a chuva lá fora trazia, com sua umidade, uma temperatura mais baixa. E isso, por si só sugeria um fogo aceso.

Nesse aconchego, Eduardo foi à adega e escolheu um vinho, um Chablis Vincent Damp. Mônica perguntou o porquê de um branco. Eduardo, que gostava quase que só de cerveja, disse que não se agradava dos tintos. E, acrescentou:

– Eu gosto dos brancos.

Mônica tomou um gole do vinho e gostou do seu perfume, mesmo que preferisse um bouquet de Sauvignon, de um Tannat ou de um Nebiollo, que só conheceu na adega do marido. Resignou-se, afinal, em sua vida inteira nem sequer imaginava beber um vinho varietal, nem também saber a diferença entre um perfume ou um bouquet de um vinho. Aconchegou-se ao marido e agradeceu por tê-lo conhecido na faculdade. Faculdade a que teve acesso pelo Programa de Cotas do Governo Federal. Enquanto ela se formou em Pedagogia, Eduardo não terminou sua faculdade. Ergueu as mãos para o céu por poder desfrutar desse conforto.

Com o controle remoto ligou a recém comprada TV Smart, de sessenta e cinco polegadas, para assistir a algum filme na Netflix. Não achando nada interessante, optaram por um vídeo do Legião Urbana, no YouTube.

Depois de meia garrafa do chablis, que estava delicioso e embriagante, a fome começou a dar o ar da graça. Mônica sugeriu uma pizza. Eduardo adorava pizza e topou a ideia.

– Vamos pedir uma pela tele-entrega. Peça uma com três sabores e borda de catupiri. Quero de filé e portuguesa. E tu, queres o quê?

–  Vou pedir ao alho e óleo, Mônica respondeu, distraidamente.

Encomendaram a pizza, que seria entregue em quarenta e cinco minutos. Uma hora depois, tocou a campainha do condomínio. Eduardo pediu para Mônica descer e receber o jantar. Mônica se surpreendeu com o entregador, em sua bicicleta, completamente encharcado pela chuva, que não dava trégua. Graças ao zelo do entregador, a pizza não tinha nem sequer um pingo de chuva.

Pagou com seu cartão de crédito Dinners Club e entregou uma nota de R$ 20,00 como gorjeta pro “bikeboy”. O rapaz agradeceu.

– Obrigado, dona Mônica.

– Como tu sabes o meu nome?

– Eu sou o Gabriel, filho da Elenita, lá da Vila Sucata. Nós éramos quase vizinhos, lembra? Depois, a senhora foi estudar na faculdade e conheceu um grã-fino e acabou se casando com ele. Depois que sua mãezinha faleceu, a senhora não tinha mais motivos pra visitar a Vila, né? Eu não sabia que a senhora morava aqui.

Pegou sua bicicleta, agradeceu os vinte pilas e se foi, pedalando na chuva. Podia inspirar um filme “biking in the rain”, pena que Fred Astaire já não dance.  

Quando chegou com a pizza, Eduardo a recriminou por ter dado R$ 20,00 ao entregador. Ele havia espiado lá da janela lateral. 

– Mas, meu amor, coitado do rapaz, estava todo molhado e com frio.

– Azar o dele, por que não se esforçou como eu para ter uma vida melhor?

– Talvez não tivesse tido oportunidade ou não tivesse uma mãe ou pai que o incentivasse, como minha mãe fez comigo. Aliás, tu tiveste a oportunidade, e todo o conforto e segurança, pois herdaste a empresa do teu pai.

– Mas eu dirijo a empresa que meu pai me legou e sei quanto é duro controlar tudo. Meu pro labore é muito bom. Mas acho que mereço. Um curso superior não me faz falta. Esse rapaz provavelmente não se esforçou como eu faço todos os dias. Ele que lute como eu. Eu nunca recebi gorjetas. Tudo o que ganho é graças ao meu esforço.

Mônica preferiu não contestar. Mentalmente, começou a lembrar de alguns amigos lá na vila que não puderam estudar e vivem de biscates.

Saborearam a pizza e tomaram o resto do vinho. Depois, foram dormir.

Enquanto isso, lá no coração da Vila Sucata, uma senhora erguia as mãos para o céu e pedia a Deus que os meninos de lá tivessem um emprego. Nem que fosse para entregar pizza, de bicicleta, em dias de chuva.

Por Carlos Hahn

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Questão de ótica!

Estava chovendo e era seu dia de folga. Algemiro pegou a bicicleta e saiu a passear. Andou pela cidade e notou que havia carros, todos estacionados. Por um instante, teve a impressão de que o lugar havia parado no tempo. Porém, lembrara também que tudo é uma questão de ótica e com essa impressão seguiu contornando as esquinas e observou os prédios torneados. Quanta beleza em sua arquitetura, analisou. Continuou vagando, meio sem rumo. Os pingos da chuva já haviam se instalado em suas roupas e outras tantas acumuladas já estavam bailando nas calçadas procurando seu destino. E ele para onde estava indo? Notou então que estava andando na contramão, mas continuou assim mesmo.
Observou atentamente os formatos dos prédios e as ladeiras, levemente inclinadas. Decidiu, então, retornar; pois já havia perdido muito tempo fazendo nada.
Ao regressar percebeu o quanto foi produtivo o seu passeio. Era o caminho que fazia todos os dias para o trabalho e nunca reparou quanta beleza havia nele e logo se perguntou: quantas coisas desperdiçamos? Se soubéssemos prestar mais atenção em nós e no que nos rodeia, entenderíamos que temos um universo ao nosso alcance e não sabemos valorizar.

Por Nelci Bach

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Pedalando na chuva
O rapaz saiu para trabalhar! Como todos os dias, ele saíade bicicleta, pois economizava um dinheirinho e fazia alguma atividade física. Naquela manhã, levantou e viu tudo nublado. Apostou que seria uma nuvem passageira. Pegou sua bicicleta, fiel companheira de todos os dias, e saiu para a rua. Neste exato momento, começou a chuvarada. Fria e forte, caindo sobre seu corpo e bicicleta! Difícil pedalar na rua alagada! Ele lutava contra a violência da chuva, mas suas pernas ficavam cansadas e os pedais da bicicleta pareciam mão obedecer ao comando. A preocupação começou a tomar conta. Não via nada pela frente. Uma cortina de água embasava sua visão. O corpo congelando pelos pingos de água. Um abraço gelado! A chuva não era uma amiga confiável! 

Por Roselena de Fátima Nunes Fagundes

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Borrões do cotidiano

Ciclista na chuva passando como um borrão sujando o uniforme da menina indo pra escola. Senhorinha com cachorro no colo e óculos da Gucci na ponta do nariz. Mãe limpando o rosto do filho com um paninho cheio de cuspe e a criança fazendo cara de nojo. Menino que quase foi atropelado no sinal verde quando estava olhando o celular e com fones de ouvido. Vendedor de loteria em alta voz lembrando a absolutamente todos do prazo de investimento no jogo. Turistas asiáticos em fila, como ovelhas, esperando para as selfies na frente do museu de arte moderna. Menina de vestido com laço no cabelo puxando a mão do pai em direção à vitrine de brinquedos. Estudante universitário com dez livros da biblioteca municipal embaixo do braço. Florista expondo as plantas na calçada. Pastor pregando o fim do mundo com a bíblia na mão. Rapaz limpando os para-brisas dos carros parados na sinaleira… Eu de binóculos observando por dias os borrões do cotidiano do 13° andar da Paulista, fumando um cigarro e ouvindo “O Mundo é um Moinho”.

Por Gilberto Broilo

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