“Vou ao meu galpão, ponho um disco na vitrola, preparo meu mate e me ponho a compor”

Carlos Hahn é autor do livro Borboletras, editado pela Pragmatha. A obra reúne poemas de toda uma vida, muitos deles premiados em renomados festivais. Nesta entrevista, Carlos fala sobre arte engajada e revela seu processo criativo. Confira:

Seu livro reúne trabalhos de toda uma vida, mantendo uma grande unidade poética. Como você definiria seu estilo?

Eu não sei se tenho propriamente um estilo. Eu gosto de escrever temas sociais, temas engajados com a política, com a defesa dos menos aquinhoados. Um jurado de festival me disse um dia que ao fazer a triagem (os regulamentos exigem anonimato para não influenciar os jurados) ele deduzia pelo estilo quem seria o autor, mas que as minhas ele nunca atinava. No entanto, acho que tenho um estilo mais ou menos parnasiano, pois me atenho à forma, à rima, embora metricamente eu ainda tenha que aprender muito. Tenho tentado escrever de forma mais livre, mas nem sempre consigo. Alguns me consideram muito rebuscado. Mas isso se deve ao fato de que faço palavras cruzadas, diariamente, há mais 50 anos.

Você tem um pé na música nativista, sendo vencedor de diversos festivais consagrados. Quando você escreve, já posiciona para ser musicado ou o poema segue livre no seu curso de criação?

Eu comecei a escrever nos primeiros meses de 2012, com a intenção de criar poemas para serem musicados. Raramente eu escrevia algo fora desse padrão, pois a grande maioria dos festivais e seus jurados são bastante conservadores. Há poucos festivais em que se pode apresentar composições mais abertas. Alguns poemas que escrevi não foram para serem musicados, mas acabaram tendo uma melodia e subiram ao palco. Pretendo, aos poucos, me soltar dessas amarras.

Como é seu processo de escrita? Tem algum ritual? Algumas pessoas, por exemplo, gostam de ter uma hora marcada para escrever, na companhia de um vinho ou chimarrão… Como é para você?

Meus momentos de criação são quase sempre pela manhã. Eu sou um grande apreciador de uísque e, por isso, meus amigos dizem que fica fácil se inspirar. No entanto, menos de 5% dos meus escritos são sob algum efeito alcoólico. Normalmente, eu me levanto da cama lá pelas sete/oito horas. Vou ao meu galpão, ponho um disco na vitrola, e preparo meu mate. Se for um dia muito frio, faço um fogo na lareira. Então, me abanco a compor, afagando meus cachorros (temos 20 vira-latas). Tenho que escrever com caneta e papel. Só depois é que vou ao computador para passar o texto a limpo.

Seu livro foi escrito parte em português, parte em “gauchês”. O Rio Grande do Sul talvez seja um dos únicos estados brasileiros que têm uma produção atual tão fortemente alicerçada em suas raízes. O gauchês é seu dia a dia ou foi necessário um forte trabalho de pesquisa?

Na verdade, eu nunca tinha estudado o “gauchês”. No entanto, antes de começar a escrever, eu comecei a me interessar e me apaixonar pelas músicas de festivais nativistas. Isso começou em 1981. Talvez de tanto ouvir essas músicas eu tenha adquirido um pouco de seu vocabulário. Por isso os termos gaudérios que uso nos poemas me vêm de forma natural. Não pesquiso sistematicamente esses termos, mas tenho quatro dicionários de termos gauchescos comigo para consultar. Mas o meu gauchês é muito limitado, pois não tenho vivência campeira.

Qual seu objetivo com a obra?

Ganhar o Nobel de Literatura. Brincadeiras à parte, minha única pretensão é divulgar meus poemas. Como já tenho filhos, já plantei inúmeras árvores, faltava escrever o livro.

O Brasil vive tempos sombrios para a classe artística como um todo. Você é otimista com o futuro da literatura?

Os tempos atuais são muito sombrios. Estamos flertando com uma nova ditadura. Nosso governo (??) não tem a mínima ideia do que seja cultura e não tem interesse nela. Nosso “Sinistro da Educassão” acha que arte é coisa de comunistas. Ele sequer domina o idioma. É triste. A arte sempre amedronta governos totalitários ou de direita. Eles têm medo de que as pessoas se libertem da opressão. No entanto, sou otimista. Acho que a literatura e as outras artes são o que nos faz seres pensantes, humanos. Parafraseando Nietzsche, sem ARTE a vida seria um erro.   

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