
“Causos crônicos” é o novo livro do escritor Paulo Pinto. Com publicação pela Pragmatha, a obra relata memórias da experiência jurídica do autor ao longo de décadas de carreira. O prefácio é assinado por Edi Silva Costa. Confira:
Fazer a leitura, a pedido, de uma coleção de crônicas de Paulo Pinto parecia uma tarefa simples, mas se tornou uma aventura. Cada texto pinta um pedacinho de um cenário maior que nos revela a vontade do autor de escrever histórias que nos aproximem da vida popular com seu senso peculiar de justiça e organização social. Textos curtos, gotas que vão formando um lago, personagens anônimos desconhecidos e ao mesmo tempo tão conhecidos e próximos de nós todos.
Com preferência às anedotas de caráter jurídico, certamente fruto de sua vivência profissional, os textos escreviventes nos convidam a experimentar, por dentro, o sabor das tramas do cotidiano de sujeitos muitas vezes à margem, seja no contexto urbano, suburbano ou rural. No limite das normas, o oficialesco que serpenteia entre nossa gente.
Porém, antes de tratar dos temas dos textos e suas abordagens, desejo falar do gênero literário, ou melhor, da forma literária cronística. Isso porque a leitura dessas histórias, situadas entre a ficção e o real, me fez questionar o lugar da crônica na atualidade. Gênero que se tornou popular no Brasil no século XX (não posso deixar de lembrar dos incomparáveis Rubem Braga e Fernando Sabino), ocupando páginas de jornais e livros que se tornaram canônicos, mas que teve grande importância ainda no século XIX por pintar um retrato contemporâneo do país e suas mazelas (e aqui me lembro de imediato do gênio Machado de Assis).
A crônica, do ponto de vista da literatura oficial e canônica, é um texto curto, faceiro, que trata de temas de interesse amplo porque aborda acontecimentos do tempo imediato, com leveza e humor. No entanto, é a genialidade do cronista que faz com que o texto perdure e assim o Brasil do século retrasado e pintado por Machado continua causando interesse, não ficou no passado junto com o acontecimento que ele retratara. Sem dúvida essa tarefa não é fácil, mas aqui estamos falando de um gênio, o grande, maior de todos, Machado de Assis.
Essa lembrança me fez questionar o lugar da crônica hoje. Habitamos um mundo em que surgem novos gêneros textuais, impulsionados por outras mídias e suportes, que desprezam o impresso, reinventam modos de produção e recepção não só da literatura, mas das artes em geral. A quem se destina a literatura no formato tradicional? A quem interessa a crônica, em um ambiente em que proliferam narrativas de toda ordem, visuais, verbais, performáticas, mediadas pela inteligência artificial? Como é recebida a verdade do cotidiano em um mundo de notícias fabricadas e que cada vez mais imbricam ficção e realidade? Por fim, qual o objeto e o objetivo da crônica, quando nossas narrativas nas redes sociais vão preenchendo o vazio dos registros cotidianos?
Como disse mais atrás, as narrativas de Paulo Pinto, situadas entre a crônica e os causos, deixam registrados acontecimentos que envolvem sujeitos bem próximos de nós. Mas por que coloquei os textos nesse entre lugar? Do meu ponto de vista, de quem acompanha de perto as poéticas orais, os textos se aproximam bastante do que chamamos de “causos”, ou seja, narrativas apontadas como verdadeiras, acontecidas com o próprio narrador ou alguém próximo a ele, envolvendo o testemunho ocular do fato. As narrativas curtas do livro trazem fortes marcas da oralidade, da linguagem popular e de situações envolvendo sujeitos à margem do sistema. Por outro lado, esses causos, acontecimentos do cotidiano que preservam o sabor da oralidade, tomam a forma escrita e expressam o desejo de serem impressos e publicados em formato de livro, se adequando, portanto, aos modos de produção do cronista ajustado à tradição literária.
Destaquei os causos de caráter jurídico e insisto nisso, no entendimento que a sociedade tem de justiça ou ausência dela, as interpretações que se faz de acontecimentos aparentemente ficcionais e que por isso mesmo carregados de verdade nos temas mais variados. As narrativas, sejam elas reveladas como crônicas do cotidiano ou não, trazem o ocaso de um mundo de memórias, nem sempre com leveza e humor, cruzamento do individual e do coletivo. E assim estamos diante de um conjunto de narrativas representativas de fragmentos da micro história social de nosso entorno, que podem nos ajudar a entender, de modo até mesmo displicente, as tramas do cotidiano que nos remetem para o mais amplo tecido social brasileiro, permeado por uma política miúda resultado e resultante da construção de um país desigual.
Depois de formular tantos questionamentos nem necessariamente desejar respondê-los, finalizo opinando provisoriamente que o lugar da crônica na contemporaneidade continua sendo o que sempre foi, o de registro de um tempo, de memórias, que nos convide à reflexão sobre nós mesmos. Foi isso que este livro me inspirou e espero que encontre nos leitores a cumplicidade necessária para seu acolhimento.
Edil Silva Costa
Alagoinhas, 17 de novembro de 2025.
3/3/26