Degustação | Laço de fita de moça bonita

O Centro de Escritores Lourencianos, de São Lourenço do Sul, publicou em 2023 sua 21ª antologia. A publicação, pela Pragmatha Editora, foi comemorativa ao aniversário da entidade. Além de textos de associados, a obra também apresenta textos de vencedores dos concursos literários realizados durante o ano. Para adquiri-la, basta entrar em contato com o CEL pelo e-mail centrodeescritoreslourencianos@gmail.com.

Confira o texto “Laço de fita de moça bonita”, de Elsa Timm.  

Laço de fita da moça bonita  

Elsa Timm

Samira olhava a paisagem da rua poeirenta com tristeza e arrependida por ter aceitado a oferta que lhe fora feita.

Três meses de trabalho na boate recém-inaugurada,  “Laço de Fita.”

Ela adotara o nome de Sami no trabalho e o semblante que enxergava no vidro do carro, talvez fosse o motivo de tanta procura profissional. Os cabelos longos castanhos caíam sobre o seu ombro emoldurando o rosto com feições perfeitas. Ela deixara Sami Jr. com a sua mãe, apesar de ter jurado para si mesma, na sua infância, jamais deixar seu filho, se algum dia tivesse um, com outras pessoas que não fosse ela mesma. Porém, ali estava ela, viajando mais de 400 quilômetros para o trabalho que a esperava.

Não achava que seria uma experiência agradável, a sua clientela provavelmente seria formada por ricos e rudes fazendeiros que perdiam de vista a cerca de suas propriedades.

O veículo entrou em um pequeno povoado, onde no final de uma longa rua havia uma construção que parecia nova ou recém pintada. O motorista que as conduzia lembrou:

— Chegamos, meninas. Esta vai ser a casa de vocês pelos próximos meses.

Sami sorriu para as suas duas colegas no carro e acrescentou:

— Três meses passam voando. Creio que neste povoado tem tudo o que precisamos para sobreviver: passamos por uma farmácia e um mercadinho na entrada.

O carro parou no pátio da casa e uma placa presa por correntes, com o desenho de um laço de fita, balançava com o vento. Sami desceu e olhou em volta, acenando para o grupo de rapazes adolescentes que sorriam e se empurravam no grupo que formavam.

Uma senhora saiu da casa mais próxima, secando as mãos no avental, furiosa, esbravejando:

— Saiam daí, já para casa. Estas mulheres do demônio vão levar vocês à perdição.

Sami sorriu, piscando o olho enquanto o grupo se dissolvia.

“É tudo igual” — pensou — “Em todos os lugares somos uma ameaça para as ‘famílias de bons costumes’”.

O salão na entrada era mais simples do que imaginava. O costumeiro balcão onde estavam expostas as bebidas que teriam que persuadir os clientes a tomarem também lotavam as prateleiras. A decoração constava de itens comuns em propriedades rurais, como uma roda de carroça pendurada na parede, tocos de grossas árvores espalhadas pelas bases das paredes funcionavam como bancos… As mesas para quatro lugares completavam a mobília naquela sala. O mais bonito era uma parede com prateleiras onde havia muitas xícaras, um pote com chá de marcela e uma panela pintada.

“Talvez os clientes não gostem de luxo”, pensou.

Os quartos eram mais confortáveis. Afinal, ali teriam que passar boa parte do tempo. Sami não conhecia as colegas. Assim como ela, o motorista as esperara em uma praça pré-determinada na capital.

Deixara Sami Jr, dormindo na casa de sua mãe. Ela própria não trabalhava mais como acompanhante de luxo, como se referia ao seu emprego. Juntara o suficiente para viver com tranquilidade. Poderia cuidar de Sami Jr. como nunca pudera fazer com as suas filhas.

Sami colocara os óculos de sombra que tapavam o seu rosto e os olhos inchados de chorar. Amava seu filho, queria ficar com ele. Já perdera a guarda de Sissa para o pai dela, numa longa batalha judicial.

Havia feito dezenas de recomendações para a sua mãe, pedindo que não esquecesse de ler histórias todas as noites, da oração ao dormir e que falasse dela, do quanto o amava. Agora estava ali, nesta aldeia no meio do nada, por três meses.

Faltavam poucas horas para o movimento começar na boate. A inauguração da temporada, com as novas meninas, prometia lotar o estabelecimento.

A proprietária Soeli sugeriu que as moças dessem uma caminhada para esticar as pernas, como dizia, depois de tão longa viagem. Sami foi a única que aceitou a sugestão e saiu para caminhar.

Ela observava algumas casas com o jardim florido, donas de casas fechavam a porta ao vê-la passar, outras puxavam os maridos para dentro de suas casas. Uma senhora idosa, sentada em um banco na pracinha, parecia cuidar do neto que brincava e não conseguiu conter a sua fala:

— Puta, vagabunda, veio roubar nossos homens, volta para a tua cidade!

O tom de voz chamou a atenção de outras mulheres que estavam nas cercas paradas e aumentaram o coro ao esbravejar.

— Puta, sai daqui, sua imundície. Veio trazer doença, sua praga.

Sami seguiu cabisbaixa e entrou no mercado que vira para comprar um chocolate. Ela teve que esperar para ser atendida, pois uma discussão acalorada estava acontecendo com um grupo de homens e mulheres no caixa:

— Ele vai fechar a represa sim — disse o mais velho.

— Não vamos sobreviver se ele cortar a água.

— Não teremos mais como manter nossos bichos, — respondia a mulher ruiva.

— Não adianta, nós já falamos com Dom Pablo várias vezes — retrucou o dono do mercado. — Ele quer aumentar a área de plantação e vai precisar daquela água.

— Será o fim do nosso povoado — retrucou o que parecia ser o prefeito, pelo crachá na camisa.

Sami colocou o valor referente ao doce no balcão e saiu quase sem ser percebida do local. Voltou rapidamente ao “Laço de Fita”, pois precisava se arrumar para a estreia logo mais à noite.

Escolheu um vestido vermelho com uma fenda generosa ao longo da perna. O cabelo prendeu conforme Dona Soeli recomendara, com um laço de fita da cor do vestido. Uma maquiagem discreta e o baton com cor de sangue terminaram o conjunto que lhe satisfez ao se olhar no espelho.

Ela esperou pacientemente com as colegas no bar, que gradativamente foi enchendo de clientes.

No início, os homens mais jovens se atreviam a chegar no balcão para pedir uma caipirinha e fazer algum agrado às meninas novas ali sentadas, mas acabavam escolhendo as que conheciam e moravam há mais tempo no “Laço de Fita”. Eles sabiam que custaria mais do que suas poucas notas de 50 reais uma noitada com as novatas. Teriam que se conformar em ver os fazendeiros chegarem abastecidos de arrogância e dinheiro.

Como previsto, por volta das 21 horas o estacionamento do estabelecimento lotou. Camionetas de todos os tipos traziam os pançudos e fanfarrões. Soeli conduzia os ricaços, como boa anfitriã que era.

O loiro de meia idade, com um bigode exageradamente caído sobre a boca, deveria ser o Dom Pablo. Ele botou os olhos na Sami e não viu mais nada. A baba, de tão espessa, lhe corria pela boca, os olhos brilhavam como estrelas ao contornar a lua. Tirou um maço de notas do bolso e depositou na mão de Soeli,  exclamando:

— Esta potranca é minha, — segurando as nádegas de Sami e apertando com força.

Sami encheu os olhos de lágrimas, pois previa uma noite de grosserias e humilhações. Dom Pablo empurrou-a pelo corredor que levava aos quartos, rindo às gargalhadas enquanto beliscava com força as costas de Sami.

A noite foi tumultuada também para as suas colegas, que entretinham os clientes já embriagados e sem condições de realizar nada além de vomitar pelos cantos e roncar deitados na cama macia. Dom Pablo não encostou na garrafa de whisky que Soeli mandara para o quarto. Montado em sua potranca, cavalgava como se selvagem fosse, rindo e apontando para a bebida:

— Isso encurta a noite. Entorpece os pensamentos, e quero aproveitar essa belezura. — segurando os cabelos de Sami como se entrelaçasse os dedos na crina do cavalo.

No outro dia, embarcou na sua camionete e seguiu arrancando pedrinhas na rua poeirenta. Gritou para a Soeli pela janela:

— De noite eu volto, reserva ela para mim de novo.

Assim os dias seguiram e arrepios de pavor sacudiam o corpo de Sami a cada anoitecer. Todo o povoado sabia do novo amor insaciável de Dom Pablo.

Durante o dia, outra romaria se formou e bateu na porta da Soeli. Era o prefeito e até dois vereadores acompanhados pelo padre torcendo o chapéu. Pediam:

— Bela Sami, nos salve dessa desgraça. Moça formosa, encantadora do nobre Dom Pablo. Peça que nos deixe a água que precisamos. Suplicamos que ele suspenda essa loucura de deixar morrer de sede os viventes desta terra.

Sami espiava na cortina da sala aquela gente desesperada, apavorada pedindo a sua ajuda. No meio daquela noite, na cama povoada por aquele grande ditador, Sami se esgueirava e com a voz que mais parecia uma gata miando, pedia:

— Deixa, meu garanhão, essa gente usar a água… de sede vão morrer se a tua gentileza não prevalecer.

Passados alguns dias, a manchete do jornal anunciava:

“Barragem tem obras suspensas”. A nota explicava que Dom Pablo tinha atendido ao apelo da população e decidido trazer água de outras bandas para as suas lavouras.

A cidade inteira sabia que Sami tinha se esforçado a noite inteirinha e trazido essa boa notícia para os moradores.

— Esta Sami, bonita e graciosa, — diziam as velhas molhando as flores no jardim. — Benza a Deus, esta pessoa tão generosa.

Mas os dias foram passando e logo a ajuda foi esquecida. Sami, quando passava pela rua com a sua saia curta e florida, com as botas pretas que quase alcançavam os joelhos, era lembrada novamente pelos desejos esquecidos daquelas pessoas atrás das cercas brancas, que bradavam:

— Lá vai ela… a peste que carrega a praga. A ladra dos nossos homens, mulher desgraçada — enquanto no chão cuspiam.

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