Confira o prefácio de “Contar histórias: uma arte ancestral”

Cleia Dröse é a organizadora do livro “Contar histórias: uma arte ancestral”. O livro reúne relatos de experiências e criação literária das participantes de oficina de contação de histórias realizada em 2024/2025. O prefácio é assinado pela diretora da Pragmatha, Sandra Veroneze. Confira:

O ser humano, desde seus primórdios, gosta de ouvir e de contar histórias. Façamos uma viagem no tempo.
Houve a época das fogueiras ancestrais. As experiências eram compartilhas à noite, no momento de descanso e quando estar juntos significava estar seguro. As vozes explicavam os fenômenos naturais, preservavam a memória do grupo, fortaleciam os laços de irmandade, tão importantes para a sobrevivência diante de uma natureza indomada.
Mais tarde vieram as tábuas em argila, pergaminhos e livros reproduzidos à mão nos mosteiros. As narrativas ganhavam alcance, geográfico e temporal. As mensagens, antes centradas em mitos e caçadas, agora também exploravam uma dimensão mais subjetiva da existência: crenças, valores, num processo civilizatório.
Com a invenção da prensa, no século XV, tudo mudou, expandindo sobremaneira o alcance das narrativas. Se antes a história dependia da memória do contador ou do privilégio econômico do leitor para acesso aos livros dos copistas, agora elas ganhavam novas fronteiras. Era mais rápida e mais barata a tipografia.
Mas em algum momento da história as coisas se aceleraram. Veículos como rádio, cinema, televisão e internet, cada uma com suas particularidades, foram levando áudio, imagem e interação para dentro de cada residência. E hoje a tecnologia nos convida a experimentar histórias imersivas, fragmentadas, colaborativas. Até há quem diga que a tela iluminada do celular é a nova fogueira em torno da qual a humanidade se reúne, agora conectada, global e instantânea.
Será?
A verdade é que mudam os suportes, mas não muda o encanto de se ouvir e contar boas histórias. Continuamos buscando a identificação com os personagens, nos apegamos à emoção que cada trama desperta, independentemente do suporte no qual a narrativa é apresentada. Tanto é assim que não há outra palavra, além de sucesso, para definir o trabalho da Oficina de Contação de Histórias realizada pela escritora Cleia Dröse, em pleno 2024, e que agora ganha uma nova dimensão, com a publicação deste livro.
No mundo em que a tecnologia proporciona tanto, este trabalho das 12 participantes da oficina mostra que há algo impregnado em nosso DNA e que de fato não precisa nada além da voz e de uma boa história para ganhar vida em nosso imaginário.
Como se diz popularmente, há vida fora da experiência literária, mas provavelmente não seja tão rica e múltipla.

Boa leitura!
Sandra Veroneze
Editora

23/01/26