Cinco anos mais tarde…

Dezembro de 2015 – Ana se veste animada “será que André gostará do presente?” Sozinhos em São Paulo, batalhando a vida, primeiro Natal juntos no apartamento minúsculo. Ele chega, cansado e aborrecido “por que não me disseste que estavas postulando um mestrado no Canadá?” Zangado, os olhos muito escuros na pele bem clara, fuzilantes. Discussão, palavras duras, acusações, mágoas, choro de Ana, jantar arruinado. De manhã cedo ela arruma as malas e sai sem ser notada.

Mais calmo, André se põe a procurá-la. Escritório fechado para as festas. A garçonete do bar próximo ao trabalho e primeira amiga, também de folga. A cidade mal decorada e silenciosa aplica-lhe o silêncio dos arrependidos.

Janeiro anuncia um novo ano sem eles. Havia, e ele sentia uma rede de proteção à volta da amada, todos na cidade hostil se recusam a ajudá-lo. No fim do mês uma transferência bancária põe fim às dívidas e ao relacionamento. Amigos e parentes no lugar interiorano onde cresceram declaram não saber de seu paradeiro. “Como, em pleno século vinte e um, se perde uma pessoa?” – pensa, incrédulo. Eis quando as notícias surgem em fragmentos. Ana se foi para o Canadá… Ana se casa…  Ana, sem planos de voltar ao Brasil… Ele, ao contrário, só e desesperançado. Como diz o poeta “o tempo não para” e ano após ano André asila-se no trabalho em busca do esquecimento que não vem.

Novembro de 2021 – Andrée retorna à família quando do falecimento do pai. A cidade então pequena florescera, edifícios ocupam na avenida principal, o lugar das casinhas quase iguais da sua infância. No cemitério, Ana. A mesma, talvez um pouco mais magra, rosto afinado. Quer estar ao seu lado saber notícias, conversar. Porém ao final da cerimônia e do enterro não mais a vê. Não, não. Dessa vez seria diferente. Falaria com ela a qualquer preço.

Na entrada ampla e bem decorada do edifício moderno e colorido, toma o elevador sem hesitação. Um nome se sobressai na porta de vidro do escritório: Ana Maria Gonçalves Brum. Uma moreninha sorridente, cabelo afro atende – “Dra. Ana? Tem hora marcada?” “Pode deixar Fran, eu atendo.”

Sentado na poltrona cinza claro, apenas ouve. Difícil, em palavras, descrever seus sentimentos. A calma e a paz definindo seu lugar no mundo. Coloca a mão no bolso interno da jaqueta e retira uma caixinha. “Lembras-te do Natal 2015? O presente chegou com cinco anos de atraso.” Ana se levanta, abre a bolsa e dela retira uma foto: “O meu também.” Num sorriso largo uma criança os olhos muito escuros na pele bem clara.

Por Vilma Vianna

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Texto integrante do projeto de exercício literário proposto pela Pragmatha Editora em suas redes sociais. Participe! Em caso de dúvida, converse com a editora Sandra Veroneze pelo email sandra.veroneze@pragmatha.com.br