“A vida cotidiana interpela e exige o tempo todo. A vida literária é exigente tal e qual”

France Gripp é autora do livro de poesias “Coração Incendiário”, lançado pela editora Pragmatha. Nesta entrevista, fala sobre seu processo de criação e convida à reflexão sobre o papel (e disponibilidade) da mulher na literatura.

Quem é a escritora France Gripp?

Uma pessoa que observa o que se passa à volta, e dentro de si. Busca aprender algo todos os dias, e procura elaborar isso em versos, ou em prosa. Aprecia todas as formas de arte. Continua, também, apreciando os quatro filhos e seis netos que tem.

O que a poesia representa na sua vida?

Para mim, a leitura de poesia significa fonte de prazer estético, inteligência e sensibilidade. Lendo ou escrevendo poesia, percebo que é uma companheira que auxilia no processo de autoconhecimento. A escrita de poesia, entendo como exercício árduo, uma vez que se pretende, com a matéria do vivido ou do imaginado, recriar-se, mesmo sobre a efemeridade das palavras. Além disso, quando se escreve poesia, deseja-se também, oferecer um objeto texto que alcance beleza, e como é difícil.

De todas as atividades do universo literário, quais delas lhe dão mais prazer?

O ato mesmo de escrever, e em segundo lugar, saber se um leitor teve um encontro feliz com meu texto. Como esse segundo aspecto anda em falta, me “agarro” no primeiro…

Qual o segredo para se ter uma produção constante?

Muitos autores relatam que a produção constante é resultado de uma disciplina. Escrever todos os dias, por exemplo; ou planejar projetos para a escrita, entre outros.

Penso que, a sustentar a disciplina e a organização, existe outro segredo, que é o desejo pela escrita. Por outro lado, para que a vontade de escrever seja cumprida, é preciso que certas necessidades da vivência cotidiana sejam atendidas. E isso é muito determinante também.

Nem todas as pessoas que, potencialmente, poderiam ter uma produção literária plenamente desenvolvida o farão, ou o fizeram. E o motivo não foi exatamente falta de disciplina, ou mesmo falta de desejo.

Por exemplo, é o caso da produção literária de mulheres. A vida cotidiana interpela e exige o tempo todo. E a vida literária também é muito exigente e interpeladora. Historicamente, sabemos que a vida das mulheres não favoreceu que se dedicassem à produção literária, ou às artes em geral, o tanto que desejariam fazer.

Entre inúmeras abordagens do tema, lembro-me agora da romancista Virginia Woolf, que examinou a questão da produção das mulheres em Um teto todo seu, tratando, principalmente, da necessidade do suporte socioeconômico às escritoras.

Entre nós, arrisco-me a dizer que Cora Coralina, poetisa maravilhosa, com imenso poder de linguagem, talvez pudesse ter nos deixado um legado mais extenso, se tivesse tido condições de trabalhar sua literatura tanto quanto teve a referida escritora inglesa.

Ainda que as mulheres tenham conquistado espaços e tempos para escrever, creio que a discussão da produção literária como um trabalho está longíssimo de terminar. As mulheres continuam exercendo dupla jornada e, no caso das que escrevem literatura, a jornada torna-se tripla.

Isso porque a escrita do poema ou do conto pode vir a ser o último dos últimos atos que uma mulher com filhos pequenos fará no seu dia.

Ou seja, a vida cotidiana interpela e exige o tempo todo. A vida literária é exigente tal e qual! Existe uma disputa e, nem sempre, um ponto de equilíbrio.

É possível ‘aprender a escrever’ ou na sua opinião se trata mais de um dom que nasce com o sujeito?

Aprender a escrever textos, para diversas funções comunicativas em geral, é perfeitamente possível. Afinal, ninguém nasce sabendo escrever.

No caso da escrita literária, penso que o aprendizado vai além de ensinamentos ou estímulos, mas não acredito que um poeta ou ficcionista assim o seja, simplesmente, porque nasceu com um dom.

Para mim, aprender a escrever, trata-se de ter o desejo pela escrita, aliado à disposição de trabalho com o texto; e de certas condições para esse aprendizado.

Observando-se o que afirmam e produzem os bons autores, sabe-se que a leitura variada e ampla, em especial de literatura mesmo, e o estudo da língua, incidem decisivamente na qualidade dessa produção. Ou seja, ler é sempre uma importantíssima condição para se aprender a escrever ficção ou poesia. E o exercício, é claro.

Vivemos tempos bastante conturbados atualmente no Brasil. É boa matéria-prima para a literatura? Você acredita que o artista tenha algum papel diferenciado nesse momento?

Tempos conturbados são matéria-prima para discussões e produção de muita literatura sim, mas não me parece que o artista tenha papel diferenciado nisso.

O papel social do artista é como o de qualquer cidadão. Se o artista, ou o literato, quer usar a arte que produz, como expressão de sua cidadania, ou não, é uma questão pessoal.

Acredito que a arte não tenha outra função, que não seja estética. E nesse propósito, para mim, já está contido parte do universo.

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