Prefácio de “Sertão Piritibano”: Que Sertão! Viva o Sertão!

Confira o prefácio de “Sertão Piritibano”, de Jorgepô, escrito por Iraci Gama Santa Luzia.

Que Sertão! Viva o Sertão!

O Sertão Piritibano é uma produção de Jorge Pereira de Oliveira – JORGEPÔ! E chegou a mim, pelo zap, com o pedido de Jorge para fazer um prefácio. Conheço Jorgepô de um período já avançado, quando as atividades culturais aconteciam no Auditório da Faculdade de Formação de Professores de Alagoinhas, prédio onde funciona, hoje, a Biblioteca Pública Municipal Maria Feijó.

Essas atividades incluíam os vários segmentos artísticos: dança, teatro, música, cinema, literatura, pintura, escultura, fotografia etc. Jorge se enquadrava, diretamente, em dois deles: a pintura/o desenho e a literatura. Estava nas artes plásticas e era qualificado para tal pela Escola de Belas Artes da UFBA, mas também viajava pela arte literária, produzindo poemas e textos de conteúdo crítico ao comportamento da sociedade, principalmente no que se refere às questões de ordem política, sempre combatendo a discriminação, o preconceito, o racismo, a homofobia etc. A liberdade de expressão e de ação sempre lastreou a sua prática. Assim, na década de oitenta, escreveu SAUSU, em homenagem ao menino nosso – Uirassu de Assis Batista – que enveredou pela guerrilha, querendo salvar o Brasil. Era dezembro de 1985, e esse livro tinha ilustrações de outro artista, Luciano Lobo.

Jorge era um ativista político e cultural. E, assim, prestou muito serviço à nossa sociedade. Mas fez concurso para professor e virou educador em escola pública do Estado da Bahia. Levou seu conhecimento e disposição também para o setor público e atuou na Secretaria de Cultura, Esporte e Lazer por certo período de tempo. Tudo isso, aqui em Alagoinhas. Até que, em determinado momento, em 2005, foi morar na Chapada Diamantina, retornando em 2019 para o Sítio do Conde, onde continuou produzindo intelectualmente, pela literatura, e, mandando, vez por outra, algum poema para minha apreciação.

Comecei a cobrar, então, a publicação dos escritos, a divulgação dos poemas feitos com tanto cuidado. E agora, a cobrança veio em forma de livro, dividido em três partes, com conteúdos distintos: poemas, cordéis e contos.

Ele fala da família, da terra do nascimento, de saudades. No contexto, sua marca registrada: a ação politizadora do professor, do artista, do cidadão. Na primeira parte, Jorge colocou os contos; na segunda, os cordéis e reservou o espaço maior aos poemas. Mas o conteúdo está igualmente distribuído nas três partes.

Assim, no primeiro conto narra a dramática viagem de Piritiba para São Paulo, quando ainda era muito criança e dependeu totalmente do desvelo da mãe para chegar são e salvo à Capital Paulista. Na segunda parte, destaca a história de seu local de nascimento, falando do povoado de Cinco Várzeas até a emancipação, com esse nome tupi: Piritiba. E, na terceira parte, traz seus poemas datados de dois lugares: Alagoinhas e Sítio do Conde.

São vários textos em três modalidades de escrita, com um intervalo de tempo que vai da infância à idade adulta. Em essência, o Jorgepô é o mesmo do Movimento Cultural: político, educador, cidadão, ativista. Há, nessa obra, porém, um destaque que salta aos olhos, da primeira à última página: a relação amorosa com a família, em que o carinho da mãe tem um recanto especial e o respeito do pai tem a lembrança da responsabilidade assumida com a família que construiu. E a sua terra natal é cantada como um refúgio de guardados especiais do tempo de criança. Ou seja, esse Sertão Piritibano é um livro de Memórias, um local de repouso de lembranças imorredouras. Pode ser levado ao povo de Piritiba como um conjunto amoroso de vivências do ontem, onde alguém relata o sofrimento dos seus entes queridos, fugindo da seca. O cuidado dos pais na trajetória era comum e, portanto, a experiência da migração sai da família de Jorge para qualquer família piritibana.

O cordel de Piritiba – De Cinco Várzeas a Wilson Aragão é uma forma lúdica de contar a origem de sua terra de nascimento, e, ali, estão o sentimento e a vontade de registrar os eventos de transformação da vida do seu lugar. E o poeta canta o seu lugar. E o Cordel vira documentário. A história de Piritiba se faz presente pelos versos do poeta Jorgepô. Os poemas da terceira parte estão impregnados de beleza, de leveza, de liberdade e de muita saudade. Muita saudade da família, da infância, da cidade e também dos amores!!! Mas cabe, aqui, o apelo pela continuação dos trabalhos, seguindo aquela máxima que está na sua prática: ‘Antes arte do que tarde’. Continue produzindo, Jorge! Vai valer sempre, valer muito, sempre, ler o que você escrever.

Iraci Gama Santa Luzia

Alagoinhas, 17 de agosto de 2026