Será lançado em breve o novo livro de Airton Fernando Iepsen, “Pomeranos e Alemães na Serra dos Tapes e Arredores”. O prefácio é da Dra. Rita de Cássia Grecco dos Santos, do Instituto de Educação e Programa de Pós-graduação em História – PPGH/FURG. Confira:

A escrita da história é, antes de tudo, um exercício de escuta, interpretação e compromisso com a memória. Em um contexto marcado pela rapidez das transformações sociais e pelo constante desaparecimento de testemunhos, documentos e experiências de vida, registrar narrativas individuais e coletivas torna-se uma tarefa fundamental para a preservação do patrimônio cultural e da identidade de diferentes grupos sociais. É nesse horizonte que se insere a presente obra, dedicada à trajetória dos pomeranos e alemães na Serra dos Tapes e em seus arredores.
Mais do que um estudo sobre imigração, esta pesquisa constitui um importante esforço de valorização das experiências cotidianas de homens e mulheres que contribuíram para a construção histórica, econômica, social e cultural da região sul do Rio Grande do Sul. Ao longo de suas páginas, o leitor encontrará relatos que ultrapassam os limites da história oficial e revelam personagens frequentemente ausentes dos grandes registros documentais, mas que desempenharam papéis essenciais na formação das comunidades locais.
A obra dialoga com uma perspectiva historiográfica, que reconhece a relevância dos chamados protagonistas anônimos da história. Professores, parteiras, agricultores, líderes comunitários, esportistas e famílias inteiras emergem como sujeitos históricos cujas experiências ajudam a compreender não apenas o processo de colonização, mas também as estratégias de adaptação, resistência e preservação cultural, desenvolvidas ao longo de gerações. Nesse sentido, a pesquisa recupera memórias que poderiam ter se perdido com o tempo, transformando-as em fontes valiosas para a compreensão do passado regional.
Outro aspecto que merece destaque é a articulação entre memória, oralidade e documentação histórica, uma legítima triangulação entre as fontes. O autor demonstra sensibilidade ao valor dos depoimentos, das fotografias, dos registros familiares e dos documentos preservados pelas comunidades, compreendendo que a história não se constrói apenas a partir dos arquivos institucionais, mas também por meio das lembranças compartilhadas por aqueles que vivenciaram os acontecimentos. Essa opção metodológica amplia as possibilidades de interpretação histórica e contribui para a democratização da produção do conhecimento.
A abrangência geográfica da pesquisa também representa um diferencial significativo. Ao considerar não apenas São Lourenço do Sul, mas todo o espaço da Serra dos Tapes, incluindo municípios como Pelotas, Canguçu, Arroio do Padre, Morro Redondo e Turuçu, a obra evidencia as conexões históricas estabelecidas entre diferentes localidades e demonstra como os processos migratórios e culturais transcenderam limites administrativos, formando uma rede de relações sociais, econômicas e culturais que permanece viva até os dias atuais.
Ao abordar temas como educação, religiosidade, saúde, associativismo, esportes, tradições e práticas comunitárias, o livro oferece ao leitor uma visão ampla da experiência dos descendentes de imigrantes germânicos na região. Ao mesmo tempo, evita a romantização do passado, reconhecendo as dificuldades enfrentadas pelos pioneiros e seus descendentes, desde as promessas não cumpridas da colonização até os desafios relacionados ao acesso à educação, à saúde e à integração social.
Em tempos nos quais a preservação da memória coletiva se torna cada vez mais necessária, esta obra assume um papel relevante ao reunir histórias, testemunhos e reflexões que fortalecem o sentimento de pertencimento e valorizam a diversidade cultural da Serra dos Tapes. Trata-se de uma contribuição importante não apenas para pesquisadores e estudiosos da imigração, mas também para todos aqueles que buscam compreender suas origens e reconhecer a riqueza das trajetórias humanas que moldaram a história regional.
Que as páginas que seguem possam inspirar novas pesquisas, estimular o diálogo entre gerações e reforçar a importância da memória como instrumento de compreensão do passado e quiçá construção do futuro. Afinal, conhecer a história de uma comunidade é também reconhecer os caminhos percorridos por aqueles que, com trabalho, perseverança e esperança, ajudaram a construir o mundo que hoje habitamos.
Profª Dra. Rita de Cássia Grecco dos Santos
Instituto de Educação e Programa de Pós-graduação em História – PPGH/FURG
13/07/26