A museóloga Cristine Oliveira Hobus está lançando, pela Pragmatha Editora, o livro “Noite dos museus em Porto Alegre – The day after”. O prefácio é da escritora e ativista cultural Cleia Dröse. Confira:

Há noites em que a cidade parece respirar de outro modo. As luzes não apenas iluminam – elas convidam. As portas, antes discretas, tornam-se passagens. E os museus, guardiões silenciosos do tempo, deixam de sussurrar para, enfim, dialogar. É nesse intervalo raro entre o cotidiano e o encantamento que se insere esta obra, ao debruçar-se sobre a Noite dos Museus e seus ecos no entorno da Praça da Alfândega, no coração histórico de Porto Alegre.
Mais do que observar um evento, esta obra escuta seus desdobramentos. Procura compreender aquilo que não se mede apenas em números: o instante em que um visitante atravessa o limiar e, talvez sem perceber, passa a pertencer. Pergunta-se, com rigor e sensibilidade, se uma noite pode inaugurar permanências – se o efêmero pode, de algum modo, semear o duradouro.
A pesquisa, de natureza descritiva e exploratória, constrói-se como um mosaico onde dados e experiências se entrelaçam. Números ganham densidade, perfis tornam-se narrativas, e os fluxos de visitantes revelam mais do que presença: indicam desejos, curiosidades, distâncias e aproximações. Entre gráficos e análises, pulsa uma pergunta essencial: Quem é esse público que chega, e o que o faz voltar?
Mas há, nesta obra, um gesto ainda mais profundo: o de olhar para dentro das próprias instituições museais. Ao refletir sobre a gestão voltada ao conhecimento do público, o estudo aponta para uma virada delicada e necessária – a de compreender que não basta preservar memórias, é preciso também acolher vivências.
Ao acompanhar as edições da Noite dos Museus entre 2016 e 2019, este trabalho revela que o impacto de um evento não se encerra em sua duração. Ele reverbera. Fica nas lembranças, nas escolhas futuras, nos retornos silenciosos. E, sobretudo, deixa marcas nos modos de pensar e fazer Museologia – ampliando horizontes para as práticas de estudo de público e reafirmando sua centralidade.
Este livro não oferece respostas definitivas. Como toda boa investigação, ele abre caminhos. E talvez sua maior contribuição resida justamente nisso: em nos lembrar que cada visitante carrega consigo uma história invisível, e que compreender o público é, em última instância, um exercício de escuta e de sensibilidade.
Um Museu existe para que os cidadãos de hoje possam revisitar memórias ancestrais e delas se apropriar.
Que estas páginas sejam lidas como quem percorre um museu em noite aberta – com atenção, com curiosidade, e com a disposição de ser tocado pelo que, à primeira vista, parecia apenas passagem.
Cleia Dröse
Escritora e ativista cultural
Foto: Acervo Prefeitura Municipal de Porto Alegre, RS
04/05/26