Posfácio de Contos de Orelhão: um alerta sobre o excesso de telas na infância

A psicóloga clínica Renata Sampaio Panato, também psicopedagoga, assina o posfácio do livro “Contos de Orelhão – permaneça na linha”, de Rodrigo Seefeldt. Ela faz um alerta sobre o excesso de telas na infância. Confira!

Na sociedade contemporânea, é difícil encontrar alguém que não esteja, de alguma forma, atravessado pelas telas. Elas estão em nossas mãos, em nossos bolsos, em nossas rotinas. São televisões, celulares, tablets e computadores, janelas sempre abertas para um fluxo contínuo de informações, imagens e estímulos.
Mas, para além da presença constante, há algo que merece nossa atenção: o modo como nos relacionamos com essas telas. O que vemos, o quanto vemos e, sobretudo, o que deixamos de viver enquanto estamos diante delas. O uso excessivo não passa despercebido pelo corpo, nem pela mente, ele se infiltra no sono, fragmenta a atenção, intensifica ansiedades e, silenciosamente, nos distancia de nós mesmos.
Se para os adultos esse movimento já exige cuidado, para as crianças ele se torna ainda mais delicado. Diferente de outras gerações, que cresceram entre esperas, silêncios e intervalos, as crianças de hoje já nascem imersas em um mundo de respostas rápidas e estímulos constantes. Por isso, mais do que limitar o tempo, é preciso estar presente, acompanhar, mediar e cuidar do que chega até elas.
Nas redes, tudo acontece depressa. Os conteúdos se sucedem em uma velocidade que quase não permite pausa. E, aos poucos, vamos desaprendendo a esperar. A sustentar o vazio entre um momento e outro. A percorrer, com calma, o caminho entre o início e o fim de uma história.
É nesse ponto que a leitura se revela como um gesto quase revolucionário. Ler exige tempo, exige presença, exige entrega. Ao abrir um livro, não há atalhos, somente páginas que se viram, palavras que se encontram, sentidos que se constroem aos poucos. A leitura nos convida a desacelerar, a imaginar, a sentir. Ela nos devolve a possibilidade de habitar o tempo de outra forma.
Em meio ao excesso de estímulos, ler é também uma forma de cuidado. Um retorno. Um respiro. Talvez, entre uma tela e outra, ainda possamos escolher permanecer – não no fluxo incessante do que passa, mas naquilo que, aos poucos, nos transforma.

Renata Sampaio Panato
Psicóloga clínica há 25 anos, psicopedagoga, mestre em educação, psicóloga especialista em infância e curso Aba

13/04/26