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“A literatura é minha vida” - 20/01/2017
Eduardo Amaro é Mestre em Literatura e Vida Social pela Unesp/Assis, Doutorando em Fontes Primárias e História Literária pela Unesp/Assis e Escritor do Grupo Marmor (Editora Leya/Casa da Palavra, selo Fantasy). Pela Pragmatha, publicou Excertos de Análises Camonianas. Nesta entrevista fala sobre seu amor por Camões e o papel central da literatura em sua vida.

Sandra Veroneze / Editora Pragmatha: O que a literatura representa na sua vida?
Eduardo Amaro: A literatura representa um viés de construção pessoal para mim, além de um meio de subsistência, pois sou escritor e professor de literatura. Faço pesquisa científica diariamente na área de Fontes Primárias e História Literária na Unesp pelo Departamento de Literatura (Doutorado) com o fomento da CAPES. Além disso, estudo para escrever os textos, que incluem líricas, afinal, também sou musicista. A literatura, portanto, é a minha vida, eu vivo dela. Sandra Veroneze / Editora Pragmatha: Atualmente está mais fácil publicar um livro. Como você vê a qualidade do que está sendo disponibilizado ao público? Eduardo Amaro: Existe uma pequena porcentagem que possui uma boa ou ótima qualidade, como é o trabalho do Enéias Tavares com A lição de anatomia do temível Dr. Louison ou o da Suzy M. Hekamiah com Código dos Mares. Também há bons universos em construção, lembro-me de um trabalho, originalmente lançado na plataforma Wattpad, The Shannara Chronicles, de Terry Brooks, que acabou virando até seriado da Netflix. Inclusive, meu provável próximo livro, “Lua, Perversa Lua”, está “em teste e em parte” nessa plataforma, eu a estou utilizando para receber as impressões e, dependendo do número de visualizações, ter uma noção do potencial vendável dele, antes de fazer a versão impressa. O mercado está assim: há muitos “fazedores de opinião” e “leitores pagos” que, pelas redes sociais, divulgam material direcionado pelas grandes editoras, que nem sempre é literatura, livros de Youtubers, por exemplo, mas se o leitor os ignorar e procurar por si próprio, ele encontrará preciosidades, no sentido da qualidade artístico-estética do livro mesmo. Poucas, é verdade, mas há.

Sandra Veroneze / Editora Pragmatha: Você é um entusiasta da literatura independente?
Eduardo Amaro: Sim, acredito que a pluralidade é necessária e atuando de forma independente, o mercado fica diversificado. Com o advento das redes sociais, divulgar uma obra está relativamente fácil, necessitando de algum empenho e direcionamento ao público correto, o autor consegue ser independente. Inclusive, editores menores conseguem boas produções de seus autores, utilizando mecanismos disponibilizados por grandes empresas, como a Amazon. No esquema print on demand, a Amazon propicia a publicação da obra do autor. Esse esquema ainda não é utilizado em grande escala no Brasil, devido aos altos custos de importação, mas em países como os EUA é uma mão na roda. Ademais, existe a publicação via kindle, essa muito viável, bastando que o editor entre em acordo com o autor, para que encontrem um preço vendável nesse mercado do livro eletrônico (e-book). A Amazon oferece a ferramenta e a plataforma de distribuição, retendo uma porcentagem da venda para ela. Um bom autor, com um trabalho de um bom editor, terá um produto com qualidade e apelo para vender nessa plataforma. Existem autores, hoje em dia, que são autodidatas em todos os setores, dispensando os editores. Não é o meu caso: eu sou independente, mas eu gosto de ter pessoas especializadas trabalhando comigo, apesar de sempre “ter o meu dedo” no trabalho. Eu direciono a capa, a arte, o formato, o prefácio, tudo terá o meu dedo, em diálogo com o editor. Acredito que o livro, quando se tratar de uma obra de arte, necessitará dessa presença do autor para além-texto, afinal, o livro é expressão artística dele. O editor vem para acrescentar, melhorar, lapidar, trabalhar conjuntamente.

Sandra Veroneze / Editora Pragmatha: Como surgiu sua paixão por Camões?
Eduardo Amaro: Meu primeiro contato com Camões foi em meados da década de 80, quando estava em férias na fazenda do meu avô e, numa dessas tardes frias de inverno (naquela época, o inverno aqui na região sudeste do Estado de São Paulo era bem definido e realmente frio), sem poder ir para a represa e com o pomar em reforma, acabei por “achar” muitos livros em uma estante enorme, que existia como uma “porta secreta” da casa. A casa era muito grande e essa estante ficava em um corredor, dividindo-a em duas casas menores. Nesse dia, rodaram a estante e ela ficou paralela à parede, liberando o corredor, o que dava acesso à outra parte da casa. Por causa disso, encontrei os livros. E, dentre eles, estava um exemplar de Os Lusíadas em prosa, que eu li naquele inverno. Havia muitos outros de Camões. Grande parte desses livros eu trouxe para a cidade. Os livros sobre contabilidade eu deixei na fazenda (risos). Quando meu pai faleceu, em 2012, a família doou-os para a biblioteca do Colégio Agrícola de Quatá (Fundação Paula Sousa). Eu continuei lendo Camões sempre que podia, ele é um poeta muito representativo. Claro que existe a dificuldade com seus sonetos para muitas pessoas, ou de ler Os Lusíadas em verso (o que eu fiz alguns anos depois daquelas férias), no entanto, são todas dificuldades contornáveis. E a cada releitura dessa obra, conforme a idade avançava, era um acréscimo, uma percepção extra. Não é à toa que, ainda hoje, Camões seja objeto de estudo. Se, por um lado, cada um tem o seu tempo para receber uma obra dessa magnitude, por outro, para apreciar a beleza dos versos que ele escreveu na medida velha, por exemplo, é necessário mais feeling que intelecto. Até mesmo na medida nova, em alguns sonetos ou trechos, é possível apreciar Camões sem uma base teórica de antemão, ou seja, apreciá-lo como se aprecia um pôr do sol ou o desabrochar de uma flor. Perceba como são singelos, doces, cativantes e de fácil entendimento esses versos de Os Lusíadas:

“Estavas, linda Inês, posta em sossego
De teus anos colhendo doce fruito,
Naquele engano da alma ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuito,
Aos montes ensinando e às ervinhas,
O nome que no peito escrito tinhas”.

Não há a necessidade de um grande esforço para ler parte da obra de Camões, como no caso das redondilhas, se elas forem bem acompanhadas de notas e vocabulário. Cada um receberá o poeta, quando estiver pronto para isso. E, quando o receber, dificilmente não se encantará com ele. Esse aspecto de Camões é o que realmente me cativou, ele consegue ser várias coisas, várias vozes, vários escritos diferentes e atingir várias pessoas, independentemente de nacionalidade, credo, escolaridade, enfim... Camões é completo e universal. Ele fala a linguagem humana.

Sandra Veroneze / Editora Pragmatha: Para você, escrever é tão prazeroso quanto ler?
Eduardo Amaro: Devo confessar que, muitas vezes, é questão de circunstância. Eu também atuo como ghost writer para uma editora de grande porte, que eu não posso revelar o nome, por motivos contratuais. Às vezes, eu preciso escrever em um estilo que eu não gosto, preciso fazer trabalhos que eu não faria, se não fosse pago para isso (como eu disse, eu vivo de literatura), sendo que, nesses casos, é mais prazeroso ler a escrever. Agora, quando eu escrevo os meus livros, que terão o meu nome na capa, as minhas líricas, as minhas poesias, ou seja, quando eu estou construindo o universo literário em que eu sou o Arquiteto, isso não tem preço. Nada me dá mais prazer que escrever. Nada!

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